Chick Corea e Gary Burton: O duo mais telepático do jazz
Há quase 40 anos, em novembro de 1972, o pianista Chick Corea e o vibrafonista Gary Burton gravaram para o selo ECM, em duo, o antológico LP Crystal silence. Em 1996, a dupla registrou o também inesquecível CD Native sense (Stretch/Concord), com ênfase nas composições do pianista (a faixa-título, Duende, Love castle, Rhumbatta), e na recriação de duas das 14 Bagatelles de Bartok. Em 2007, o reencontro dos dois em turnê europeia gerou o álbum duplo The new Crystal silence (Concord), vencedor do Grammy de 2009 na categoria jazz instrumental.
Assim é que mesmo os admiradores desses músicos primorosos podem achar dispensável a audição/fruição de mais uma gravação do par, como é o caso do recém-lançado CD Hot house (Concord), já disponível nas lojas virtuais.
Contudo, o disco deve ser apreciado, especialmente, por ser um documento excepcional da interação — instantânea, telepática e do mais alto nível técnico imaginável — a que chegaram Corea, 71 anos, e Burton, 69, interpretando — em linguagem jazzística aqui e acolá enriquecida pela arte da fuga ou do contraponto — temas bem conhecidos (standards) do gosto pessoal deles. A exceção é Mozart goes dancing (7m10), a única composição de Corea da seleção, tocada pelo duo com a “assistência” do Harlem String Quartet, e que é uma joia em matéria de Third stream music.

As outras nove faixas são as seguintes: Can’t we be friends (7m25), canção esquecida do repertório de Art Tatum, Ella Fitzgerald e Frank Sinatra; Eleanor Rigby (7m), de Paul McCartney; Chega de saudade (10m45) e Once I loved / O amor em paz (7m20), de Tom Jobim; Time remembered (6m10), de Bill Evans; Hot house (3m55), a paráfrase de Tadd Dameron de What’s this thing called love, e que se tornou uma das trade marks do bebop; Strange meadow lark (7m), de Dave Brubeck; Light blue (6m), de Thelonious Monk; My ship (11m 50), de Kurt Weill, que a associação Gil Evans-Miles Davis consagrou no jazz moderno em Miles ahead (Columbia, 1957).
Gary Burton surgiu na década de 60, vindo do Berklee College, de Boston, e tornou-se o mestre por excelência do vibrafone no jazz, introduzindo a técnica hoje corrente do emprego de quatro mallets (marteletes), e não apenas de dois, num instrumento que sempre foi mais tratado como percussivo do que “harmônico”. Com sua proficiência no desenvolvimento de acordes e sua “cabeça” de pianista, a parceria de Burton com Corea — virtuose do teclado tão íntimo de Bach como de Bud Powell — produz um resultado musical semelhante ao de um concerto de dois pianistas, a quatro mãos, em dois instrumentos. Tanto nas peças mais contrapontísticas (Can’t we be friends, Eleanor Rigby e Mozart goes dancing) como nas interpretações decididamente românticas (em Once I loved e no tema de Brubeck).
Burton e Corea começaram neste mês uma longa turnê pelos Estados Unidos e pelo Canadá, que só termina no fim do ano. Em janeiro, têm compromisso de uma semana, pelo Caribe, no Jazz at Sea Cruise.
O vibrafonista garante que se apresentar em duo com o velho parceiro — mesmo que quase diariamente, durante tanto tempo — é “uma surpresa constante”. E acrescenta: “Ele está sempre lançando bolas de efeito (curve balls), o que faz com que eu tenha de rebatê-las em outras direções. Nunca tocamos a mesma coisa, noite após noite. Mesmo se forem os mesmos temas, mesmo os que tocamos juntos há muito tempo”.
