Ray Anderson reaparece à frente da Pocket Brass Band
Em 2009, o intrépido e heterodoxo trompetista-compositor Dave Douglas editou, na sua etiqueta Greenleaf, o disco Spirit moves, à frente do quinteto que batizou de Brass Ecstasy, integrado por Luis Bonilla (trombone), Marcus Rojas (tuba), Vincent Chancey (trompa) e Nasheet Waits (bateria). O álbum foi o 16º mais votado na lista dos 50 Top Cds do ano dos críticos da revista Jazz Times, e o seu sucesso provocou, logo em seguida, o lançamento de “United front”, gravado pelo conjunto, ao vivo, no Festival de Newport de 2010. Nos dois registros, Douglas & Cia criam sequências musicais em que o espírito e o clangor das primitivas brass bands de Nova Orleans mesclam-se com o expressionismo politonal do jazz de vanguarda, sem precisão do apoio de “instrumentos harmônicos”.
Dez anos antes, um pequeno conjunto liderado pelo trombonista Ray Anderson estava tocando o mesmo tipo de jazz, digamos, “neo-retrô”. Anderson — apesar de ter surgido, na década de 70, como o new kid on the block, como o novo Roswell Rudd — andava “abaixo do radar”. E o CD Where home is (Enja), da sua Pocket Brass Band, não teve a repercussão merecida.

Pois bem. A minúscula brass band de Ray Anderson — o mesmo quarteto de 1999, com Lew Soloff (trompete), Matt Perrine (sousaphone) e Bobby Previte (bateria) — reaparece, enfim, no excelente álbum Sweet Chicago Suite (Challenge/Intuition), gravado em maio de 2010, na Suíça, e só agora disponível nas lojas virtuais.
Segundo Anderson, a Sweet Chicago Suite, dividida em oito partes (faixas) “é, ao mesmo tempo, uma descrição musical de Chicago (onde ele nasceu, em 1952) nos anos 60 e uma reflexão sobre minha juventude”. E detalha: “A peça medita sobre as muitas forças poderosas que me fustigaram e me educaram: minha família, a contracultura da época, o racismo e o movimento pelos direitos civis, a polícia de Chicago, os Blackstone Rangers (uma gangue de jovens, algo entre uma espécie de milícia para a proteção de residentes no South Side e a máfia), o Vietname, a high school, as garotas e, é claro, a música”.
As primeiras seis faixas do disco são da versão original da suíte, que o trombonista compôs e tocou por encomenda da Chamber Music America, em 2001. São elas: Chicago Greys (8m20), a partir de envolvente reinvenção de uma marcha fúnebre típica das brass bands de Nova Orleans (não se deve esquecer que, no início da década de 20, os músicos negros de Storyville — inclusive Joe King Oliver e Louis Armstrong — subiram o Mississipi, e se radicaram em Chicago); High school (6m10), alegre e juvenil como uma parada escolar ; Magnificent Mistifiyo (7m55), uma extravaganza sônica decididamente free, indicada apenas para iniciados; Going to Maxwell Street (7m05), com marcação em 2/4, lembranças do Dixieland, em clima bem chicagoano; Get to it (2m15), um tour de force dos virtuoses Ray Anderson e Lew Soloff, com um incrível walking bass do sousaphone (tuba) de Matt Perrine; Some day (7m05), também no espírito da Crescent City e com destaque para Perrine.
As duas partes finais da suíte Sweet Chicago são The Stingray rag (11.50) — introduzida por uma surrealista confabulação de três minutos dos três metais — e Next march (7m30) — que poderia ser descrita como uma composição encomendada a Stravinsky pela venerável Olympia Brass Band.
Ray Anderson reafirma neste álbum, aos 59 anos, ser um dos mais originais, criativos e radicais trombonistas dos anais do jazz. O virtuose do trompete Lew Soloff, 68, está tão afiado como quando brilhava nas orquestras de Gil Evans e de Thad Jones-Mel Lewis. Matt Perrine nasceu na California, era guitarrista e baixista, mas adotou New Orleans, e se tornou um ás do sousaphone — o tipo de tuba especial para paradas. O baterista-compositor Bobby Previte é, desde a década de 80, quando se fixou em Nova York, um músico de renome no jazz experimental, colaborador de artistas do quilate de John Zorn, Bill Frisell e Wayne Horvitz, além de ganhador, este ano, de um dos 10 grants concedidos pela John Simon Guggenheim Memorial Foundation a compositores selecionados por sua “habilidade criativa excepcional”.
Sweet Chicago Suite reúne quatro jazzmen de habilidades criativas excepcionais.
