Ravi, o filho de John Coltrane, lança novo disco no selo Blue Note
Quando John Coltrane morreu, em 1967, dois meses antes de completar 40 anos, seu filho Ravi tinha só dois. Criado pela mãe, a tecladista, harpista e compositora Alice McLeod Coltrane (1937-2007), o garoto seguiu a vocação do legendário pai, e tornou-se um saxofonista (tenor e soprano, como Trane) de brilho próprio, ao lado de outras estrelas de sua geração como Joshua Redman (filho do saxofonista Dewey Redman), James Carter, Eric Alexander e Mark Turner.
O primeiro registro relevante de Ravi Coltrane foi o álbum From the round box (RCA), de 1999, à frente de um quinteto com Ralph Alessi (trompete), Geri Allen (piano), James Genus (baixo) e Eric Harland (bateria). Em 2006/07, ele gravou o também excelente Blending times (Savoy), na liderança do seu quarteto habitual, integrado pelo venezuelano-nova-iorquino Luis Perdomo (piano), Drew Gress (baixo) e E. J. Strickland (bateria).

Agora, no recém-lançado Spirit fiction (Blue Note), gravado em sessões diferentes, em 2010 e no ano passado, Ravi desenvolve suas peças — que mais parecem “composições instantâneas” — e também temas de Ralph Alessi, um de Ornette Coleman (Check out time) e outro de Paul Motian (Fantasm) na moldura das mesmas formações acima citadas.
O quarteto interpreta Roads cross (5m) e Cross roads (4m) — com o líder no sax soprano — mais a faixa-título (2m25), a balada The change, my girl (6m45) e Marilyn & Tammy (5m40) — esta também com o soprano em evidência. As três primeiras foram compostas por Ravi, em conjunto com os parceiros; as duas últimas levam somente a sua assinatura. O saxofonista é também o autor de Spring & Hudson (2m20), um diálogo tenso e especulativo com o baterista Strickland.
O quinteto, por sua vez, improvisa a partir de três peças do primoroso trompetista Ralph Alessi, discípulo estilístico de Kenny Wheeler: as fulgurantes e contrapontísticas Klepto (7m30) e Who wants ice cream (6m30); a meditativa Yellow cat (6m50). O quinteto vira sexteto — com o convidado de honra Joe Lovano (sax tenor) — para a recriar o ponto culminante do CD: Check ou time (7m25), que Ornette Coleman gravou com Dewey Redman, em 1968 (LP Love call, Blue Note).
O grande Lovano e o filho de John Coltrane — acompanhados, apenas, pela requintada pianista Geri Allen — dão uma interpretação conforme a impressionista e vaporosa Fantasm (4m10), do inesquecível baterista-compositor Paulo Motian (1931-2011).
Geoffrey Himes, ao comentar este primeiro álbum de Ravi Coltrane para a etiqueta Blue Note (Jazz Times, edição de julho-agosto), descreve com precisão a arte do saxofonista: “O que é notável em sua voz no tenor é como inflexões ligeiramente ásperas, ligeiramente nasais, sublinham suas frases, enquanto seu fraseado relaxado e sua invenção melódica desarmam o ouvinte”. E acrescenta: “É um som maravilhosamente paradoxal — abrasivo e agradável ao mesmo tempo”.
