Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Julho de 2014

Jazz

Ted Nash e a presença de Ornette Coleman 

Luiz Orlando Carneiro 

O saxofonista e clarinetista Ted Nash, 51 anos, apareceu na cena jazzística antes de chegar à maioridade, como sideman das orquestras de Don Ellis e de Louie Bellson. Era então conhecido no milieu como o talentoso sobrinho do também saxofonista do qual herdou o nome, e o filho do trombonista Dick Nash — hoje aposentado, aos 84 anos, depois de profícua carreira de músico de estúdio em Hollywood, muito ligada à de Henry Mancini.

Na década de 90, Ted Nash participou ativamente do Jazz Composers Collective, um refinado grupo de instrumentistas-compositores, no qual se destacaram outros quatro músicos fora de série: Frank Kimbrough (piano), Ben Allison (baixo), Ron Horton (trompete) e Michael Blake (sax soprano).

Este quinteto — reforçado por Wycliffe Gordon (trombone) e Matt Wilson (bateria) — gravou, em 2001, um dos melhores álbuns dos últimos 15 anos: The Herbie Nichols project/ Strange City (Palmetto). Pouco antes, à frente do grupo Odeon, Nash lançara Sidewalk meeting (Arabesque), com seis composições de sua lavra, de feição neo-retrô, mesclando referências ao estilo Nova Orleans e à música Klezmer, além de reverências explícitas a Duke Ellington, a Debussy e a Thelonious Monk. Em 2002, apresentou nova coleção de suas obras no CD Still evolved (Palmetto), na companhia de Kimbrough, Allison, Matt Wilson e dos trompetistas Wynton Marsalis (quatro faixas) e Marcus Printup (outras tantas).

O subestimado saxofonista-compositor lança CD em quarteto sem piano 
O subestimado saxofonista-compositor lança CD em quarteto sem piano 

No recém-lançado The creep — o primeiro de sua nova etiqueta, a Plastic Sax Records — Ted Nash toca sax alto, em quarteto com o fiel Ron Horton (trompete), Paul Sikivie (baixo) e Ulysses Owens Jr. (bateria). Ou seja, é impossível não pensar em Ornette Coleman, no sax alto de plástico que usava no início de sua revolucionária carreira, e naquele quarteto também sem piano que tinha o pocket trumpet de Don Cherry na linha de frente.

E é o próprio Ted quem admite a “presença” de Ornette em The creep: “Este é o meu primeiro disco no qual só toco sax alto. Na maioria das minhas gravações preferi o tenor. Mas, para este tipo de música, abracei totalmente o alto. Parte da música foi originalmente escrita para o filme Caography, de Douglas Chang (ainda em produção), no qual atuo e toco com o meu quarteto. Meu personagem é baseado, livremente, no Ornette Coleman do fim dos anos 50”. E ressalta que se trata também do primeiro álbum que fez sem um instrumento capaz de produzir acordes.

Aliás, se sete das nove faixas do CD são de autoria de Nash, Kaleidoscope (5m15) é de Ornette, enquanto que Twilight sounds (8m) — uma peça bem bop, baseada em Hot house (Tadd Dameron) — foi escrita pelo também sax alto Sherman Irby, companheiro do líder na Lincoln Center Jazz Orchestra.

Embora o quarteto de The creepnão seja um decalque do lendário free quartet de Coleman de 1959-60, que mudou o rumo do jazz, o ilustre personagem está presente nos uníssonos e nas trocas de compassos do sax alto e do trompete, propelidos pelo combustível polirrítmico do baixo e da bateria, sobretudo no desenvolvimento das peças mais aceleradas de Nash, como Organized crime (5m15) e Plastic sax rumble (4m40).

O novo álbum de Ted Nash-Ron Horton não pode ser rotulado propriamente como de free jazz. Está mais para o que se convencionou chamar de free bop, até por que a fluência melódica a partir do tema é cultivada, especialmente na faixa-título (6m30), em tempo médio, e em tunes mais dolentes, como Burnt toast and avocado (6m55) e Plastic sax lullaby (4m40).

Afinal de contas, não se pode esquecer que Ornette Coleman escreveu (e ainda interpreta) Lonely woman e Sleep talking, duas obras-primas essencialmente melódicas do cânone jazzístico contemporâneo.  

Tags: CD, grupo, jazz, piano, saxofonista, ted nash

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