VijayIyer é o grande vencedor da eleição anual da ‘Downbeat’
No ano passado, Jason Moran, 37 anos, conquistou uma invejável tríplice coroa na votação que a revista Downbeat promove anualmente com críticos do mundo todo: Artista do Ano; Melhor Pianista; autor do Álbum de jazz do ano — o CD Ten, com o qual celebrou o 10º aniversário do seu trio Bandwagon (Nasheet Waits, bateria; Tarus Mateen, baixo).
Neste ano (período junho 2011-maio 2012), o também notável pianista Vijay Iyer — nascido há 40 anos em Albany, Nova York — superou a marca de Moran. O filho de imigrantes indianos — inicialmente graduado em matemática e física pela Universidade de Yale — foi o mais votado pelo colégio eleitoral de 186 críticos reunido pela DB no seu 60º International Poll em nada menos que cinco categorias: Artista do ano; Álbum do Ano” (Accelerando, selo ACT); melhor pianista; lider do melhor Jazz Group (o trio com o baixista Stephan Crump e o baterista Marcus Gilmore); estrela em ascensão (rising star) entre os compositores.

O feito de Iyer é a consagração definitiva de um artista especulativo, que não esconde a influência do vanguardismo introspectivo de Andrew Hill (1931-2007) e do misterioso, tenso, fluir da música carnática (a música clássica do Sul da Índia), sem deixar, no entanto, de cultuar a tradição do pianismo jazzístico. E também sem fechar os ouvidos ao vibe das ruas.
Esta concepção muito original — que divide e desenvolve com o seu trio habitual, e também ao lado do saxofonista (alto) Rudresh Mahantappa — já tinha merecido calorosos aplausos da crítica especializada e dos jazzófilos mais exigentes. No 58º referendo dos críticos da DB (2009-10), o Disco do Ano foi Historicity (ACT), do seu trio, que chegou também em primeiro lugar na divisão rising star dos pequenos conjuntos. O mesmo álbum já tinha sido premiado pela Jazz Journalists Association dos Estados Unidos, e foi um dos cinco indicados para o Grammy 2011.
Accelerando — gravado em agosto do ano passado e lançado em fevereiro último — não deixa de ser uma continuação, uma espécie de segundo volume de Historicity. Tem 11 faixas (quase uma hora de música), das quais cinco assinadas pelo líder-compositor: Bode (2m15), onde já surgem efeitos sônicos providos pelo arco do baixo que reaparecem em outros momentos do disco; Lude (4m), introduzida por um ostinato soturno que leva a variações harmônicas assimétricas, à la Andrew Hill; a abrasiva faixa-título (2m50), percussivamente tensa, harmonicamente densa; a dançante Optimism (7m20), em crescendo, com solo-interlúdio de Crump; a fervilhante e politonal Actions speak (5m40), com participação hiperativa (e solo) do baterista Marcus Gilmore — que é neto de Roy Haynes, lenda viva do jazz.
Os outros momentos particularmente marcantes do CD do Ano da crítica internacional são reinvenções de quatro composições de angulações totalmente diversas: Little pocket-size demons (7m15), do vanguardista Henry Threadgill, chasse gardée dos “entendidos”; Wild flower (4m10), de Herbie Nichols; The village of the virgins (5m15), peça extraída do balé The river, que Duke Ellington escreveu para Alvin Alley, lá se vão 40 anos; Human nature (9m35), de Michael Jackson, tema daquele álbum Thriller, e que o pianista já tinha interpretado no seu disco solo gravado em maio de 2010.
Vijay Iyer é um daqueles jazzmen excepcionais que — como aliás Jason Moran — dão a impressão de que compõem enquanto improvisam (ou que improvisam enquanto compõem).
Nota: Os resultados completos do 60º Downbeat Critics Poll estão publicados na edição de agosto da chamada bíblia do jazz, já à venda.
