Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Jazz

Andy Sheppard e o Trio Libero 

Luiz Orlando Carneiro 

Aos 55 anos, o saxofonista tenor/soprano britânico Andy Sheppard é um daqueles “músicos para músicos” apreciados mais como sideman do que como líder. Sobretudo na condição de integrante, desde a década de 90, da orquestra e dos conjuntos montados pela excepcional compositora-arranjadora-pianista Carla Bley.

Neste contexto, destacam-se na discografia de Sheppard os seguintes álbuns gravados para o selo Watt, de sua patroa, mas distribuídos pela ECM: Songs with legs, 1994, trio com Steve Swallow (baixo) ; The Lost Chords, 2003, quarteto com Swallow e Billy Drummond (bateria); The Lost Chords find Paolo Fresu, 2007, o mesmo quarteto mais o trompetista italiano; Appearing nightly, 2006, com a big band de Carla, ao vivo, no clube New Morning, Paris.

Na condição de líder, Sheppard gravou para a ECM, em 2008, o CD Movements in colour, um quinteto de coloração world music com músicos europeus (duas guitarras e baixo) e o queniano-britânico de ascendência indiana Kuljit Bhamra, percussionista especialista na tabla.

ECM lança o CD mais representativo da arte do saxofonista inglês 
ECM lança o CD mais representativo da arte do saxofonista inglês 

No início deste ano, a refinada etiqueta de Manfred Eicher lançou o disco mais representativo da arte do saxofonista, gravado em julho do ano passado, num estúdio de Lugano (Suíça), e intitulado muito apropriadamente Trio Libero. O renomeado baixista franco-argelino Michel Benita, 58 anos, e o baterista escocês Sebastian Seb Rochford, 38, completam o trio ao longo de 13 faixas, a maioria de duração variando entre três e pouco mais de quatro minutos. Há apenas um standard usado como tema para variação: I’m always chasing rainbows (4m15).

O Trio Libero formou-se, na verdade, em 2009, quando Sheppard curtia uma residência na pequena cidade de Aldeburgh, em Suffolk, um ponto de encontro para músicos criado, em meados do século passado, pelo celebrado compositor Benjamin Britten (1913-76).

E é o próprio saxofonista quem explica a concepção do grupo: “Basicamente, tranquei o trio numa sala por quatro dias, e disse que íamos apenas improvisar juntos, gravar tudo, e ver o que aconteceria. Eu levei também alguns temas, e assim a banda surgiu. Depois disso, passei algum tempo harmonizando e editando o material, etc”.

Ou seja, o modus operandi teve como base a improvisação, depois gravada e reescrita, tornando-se então material reciclado para um novo ciclo improvisatório, agora registrado no álbum da ECM.

Como se vê, o conceito de liberdade do trio não tem nada a ver com aquele tipo de free jazz instantâneo, que deixa o ouvinte em suspense. O líder e seus parceiros improvisam sem limitações em matéria de choruses ou de tempo, mas mantêm compromisso com a recriação melódico-rítmica de uma temática não aleatória, em clima sereno.

A faixa de abertura, Libertino (3m40), dá o tom dominante do álbum, com o sax tenor de Sheppard burilando o pungente e envolvente tema. Slip duty (3m35), logo em seguida, parte de um vamp, aquecido pelos estalos da bateria obstinada (jamais exagerada) de Seb Rochford, que tem espaço para um breve solo. Em I’m always chasing rainbows (4m15) o trio realça o seu lado romântico, com o sax soprano do líder citando Chopin.

Sheppard volta ao soprano em outras duas faixas: Land of Nod (3m45), uma animada marchinha, e a modal Ishidatami (3m48). Mas, nas demais, exibe impecável comando do sax tenor (sem qualquer “dó de peito”) e inspiração melódica comparável à de Joe Lovano, sobretudo em Skin/Kaa (6m05), nas duas partes de Space walk (3m10, 3m50) e em The uncondicioned secret (4m). 

Tags: conjuntos, jazz, músico, orquestra, saxofonista, sheppard

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