Meio século de ‘Jazz samba’
O Washington Post registrou a data numa entrevista com o único sobrevivente do acontecimento, o baterista Buddy Deppenschmidt, 76 anos. A data foi a gravação, há 50 anos (meio século!) do LP Jazz samba (Verve), marco fonográfico do casamento do jazz com a bossa nova, do encontro do já reverenciado saxofonista tenor Stan Getz e do respeitado guitarrista acústico Charlie Byrd com a música de Tom Jobim, de Baden Powell/Billy Blanco — e até de Ary Barroso.
O lendário álbum foi lançado no dia 20 de abril de 1962, menos de três meses depois de gravado (13 de fevereiro) na Igreja Unitária de Todas as Almas (All Souls Church), em Washington D.C. Seis de suas sete faixas foram registradas num único take, numa única manhã estendida até as duas horas da tarde, conforme recorda Deppenschmidt. Stan Getz pegou o avião de volta para Nova York à noite, sem ter a mínima ideia de que aquele seria “um dos mais influentes álbuns de jazz de todos os tempos”.

O LP vendeu um milhão de cópias em 18 meses, espalhando pelo mundo todo as melodias de Desafinado e Samba de uma nota só (Jobim), O pato (Jayme Silva/Neuza Teixeira), Samba triste (Baden Powell/Billy Blanco), Bahia e É luxo só (Ary Barroso). Charlie Byrd compôs o sétimo tema da sessão, intitulado Samba dees (sic) days.
A edição brasileira de Jazz samba (ainda guardo o vinil) saiu em novembro de 1962, com notas de contracapa de Edman Ayres de Abreu, que exclamava: “Este disco representa o que se pode chamar de Era Dourada da Música Brasilera. Ele é a prova irrefutável de que chegou a nossa vez, é só sabermos aproveitá-la. Quando um músico que criou escola e é aclamado, respeitado e imitado como gênio, um solista solicitadíssimo no mundo inteiro que grava e ganha o que quer, e se chama Stan Getz; quando um tal instrumentista grava todo um LP exclusivamente com músicas brasileiras é porque, finalmente — e não temporariamente, como dantes — os dourados portões do cobiçado mercado musical internacional escancaram-se aos nossos legítimos compositores”.
Em Jazz samba — reeditado em CD em 1997 — os temas são apresentados, em geral, sem grandes variações harmônicas, exceção feita à introdução de Samba de uma nota só. A performance dos dois solistas, então no ápice de suas carreiras, é de alta qualidade. Geralmente, o guitarrista fica com os primeiros choruses, preparando os magníficos solos de Stan The Sound Getz.
O violão de Byrd fornece, constantemente, um apoio rítmico-harmônico com visível influência hispânica (ele foi aluno de Segovia). Preocupados em dar às peças interpretadas um calor rítmico mais intenso do que o criado pela sutil batida típica da bossa nova, os dois líderes usaram dois bateristas (Deppenschmidt e Bill Reichenbach) e dois baixistas (Keter Betts e Gene Byrd, este também na guitarra rítmica).
O cinquentão Jazz Samba, como escreveu Steve Huey, do All Music Guide, é um álbum “absolutamente essencial em qualquer coleção de jazz”.
