Arqueologia jazzística
Duke Ellington tocava piano muito bem, mas costumava dizer que o seu verdadeiro instrumento era a orquestra. Gil Evans (1912-1988), que também tinha intimidade com o piano, foi o Ellington do jazz moderno. Não só como compositor-arranjador à frente das orquestras que liderou (Great jazz standards, 1959; Out of the cool, 1960) mas também como partner inseparável do Miles Davis que desabrochou em 1948-49, em Birth of the cool, e atingiu o “estado de graça” com três magníficos álbuns de suítes concebidas e orquestradas pelo mestre do impressionismo jazzístico: Miles ahead, Sketches of Spain e Porgy and Bess (1957-59).
O centenário do canadense-novaiorquino Ian Ernest Gilmore Evans vai ser celebrado, neste 13 de maio próximo, com o lançamento de um CD muito especial, intitulado Centennial: Newly discovered works of Gil Evans, produzido pela ArtistShare (www.artistshare.net), a cooperativa criada e dirigida por Maria Schneider — discípula de Evans e uma das maiores estrelas do jazz contemporâneo.

O disco de 10 faixas é fruto de um trabalho investigativo do igualmente compositor-arranjador Ryan Truesdell, formado pelo New England Conservatory, onde estudou com Bob Brookmeyer. Ele pesquisou arranjos manuscritos inéditos de Evans no arquivo da família, e descobriu obras virgens, ou raramente tocadas, algumas dos tempos do primeiro emprego do legendário músico, na década de 1940, na banda de Claude Thornhill.
De posse desse valioso material, Truesdell reuniu uma big band formada, em sua maioria, por jazzmen do primeiro time de Nova York, integrantes habituais da orquestra de Maria Schneider, como os saxofonistas Donny McCaslin (tenor), Steve Wilson (alto) e Scott Robinson (barítono), os trompetistas Greg Gisbert e Laurie Frink, o pianista Frank Kimbrough e o baixista Jay Anderson. E ainda músicos do quilate de Joe Locke (vibrafone), Romero Lubambo (guitarra), Marcus Rojas (tuba), Lewis Nash (bateria) e da vocalista Luciana Souza.
A primeira faixa de Centennial é Punjab, original de Evans, e tem — segundo o crítico Thomas Conrad (Jazz Times, edição de maio) — “suas obsessivas sonoridades, suas cores crepusculares vindas de instrumentos como o corne inglês, a flauta, o fagote, a tuba e o harmônio”. Esta peça tinha sido composta para o LP The individualism of Gil Evans (Verve,1964), mas acabou ficando de fora.
Outras partituras de Evans desenterradas, consideradas particularmente preciosas, são The Barbara song (tema de Kurt Weill) e Waltz/Variation on the misery/So long, um medley de 19 minutos. Há ainda arranjos feitos para acompanhamento de vocalistas, como é o caso de Look at the rainbow, originalmente escrito para um álbum de Astrud Gilberto, e só agora revelado pela orquestra de 12 cadeiras, com a voz de Luciana Souza.
