Receita bem ‘groovy’: Sax barítono com ‘organ trio’
Em entrevista à revista Downbeat (edição de fevereiro), o saxofonista barítono Gary Smulyan assim expressou a paixão que devota ao seu instrumento, raramente ouvido à frente de um pequeno conjunto de jazz: “Ninguém, em nenhum outro instrumento, tocou uma balada de modo tão belo como Harry Carney; ninguém foi mais lírico do que Gerry Mulligan”.
Aos 66 anos, eleito desde 2007 o número 1 do big sax na votação anual dos críticos promovida pela DB, Smulyan lançou recentemente o CD Smul’s paradise (Capri), gravado em abril do ano passado, na liderança de um quarteto integrado por um trio de “cobras”: Mike LeDonne (órgão Hammond B-3), Peter Bernstein (guitarra) e Kenny Washington (bateria).
E é ele mesmo quem explica por que resolveu registrar em estúdio sua reunião, pela primeira vez, com um típico organ trio: “Há muito tempo que eu esperava fazer isso. Cresci ouvindo George Benson com Lonnie Smith, Don Patterson, e aqueles álbuns de Grant Green e Larry Young, aquela música com um swing incrível”.

Nos anos 50 e 60, os trios (ou quartetos) comandados por cultores do B-3 tomaram conta das juke boxes, e também dos bares e clubes onde o jazz e o rhythm & blues eram cultuados, sobretudo nos guetos negros da Costa Leste dos Estados Unidos. Jimmy Smith (1925-2005), com sua incrível técnica (nas mãos e nos pés), foi um dos grandes responsáveis pela variante soul, groovy ou funky do bebop, juntamente com os já citados Patterson (1936-88), Young (1940-78), e o ainda ativo septuagenário Dr. Lonnie Smith, além de Richard Groove Holmes (1931-91), Jimmy McGriff (1936-2008), Shirley Scott (1934-2002) e Rhoda Scott (73 anos, desde 1968 radicada em Paris).
Soprando o seu sax barítono, decididamente inspirado na “voz” vigorosa de Pepper Adams (1930-86), Gary Smulyan fez de Smul’s paradise uma franca e aberta comemoração dos jazz combos com combustível rítmico-harmônico provido pelos três teclados (e os efeitos) do pequeno órgão elétrico patenteado por Laurens Hammond na década de 1930. E para tanto, contou com a imprescindível competência e criatividade de Mike LeDonne que — depois de firmar sua reputação como pianista — passou a comandar um organ quartet que se apresenta, sempre às terças-feiras, no Smoke, um dos clubes de jazz mais in de Manhattan.
Para o novo álbum, Smulyan selecionou oito faixas, das quais três de sua autoria: a faixa-título (8m25), Heavenly hours (4m) e Blues for D.P. (6m35), esta em memória de Don Patterson. A “presença” deste organista na sessão está ainda em dois temas de sua lavra: Up in Betty’s room (6m40) e a balada Aires (8m10). As demais peças são Sunny (9m); Pistaccio (4m40), da organista Rhoda Scott; e Little miss half steps (4m50), do saxofonista George Coleman.
Em suma, Smul’s paradise é um ótimo CD de straight ahead jazz que enriquece a discografia do mais eloquente herdeiro da linhagem Leo Parker-Cecil Payne-Pepper Adams. E, igualmente, os currículos de seus renomados companheiros de sessão, sobretudo LeDonne e Bernstein, que se destacam como solistas e não apenas como indispensáveis parceiros.
