Arts & Crafts, o quarteto com a cara e a alma de Matt Wilson
Matt Wilson, 47 anos, não é, apenas, um bem sucedido baterista-compositor, cultuado músico para músicos da cena novaiorquina. É também um inteligente, sofisticado e bem-humorado inventor de sons, que conhece como poucos o seu ofício de percussionista e a arte da expressão musical. E o seu quarteto Arts & Crafts (Artes & Ofícios) — formado há 10 anos — tem a sua cara e a sua alma, ainda que o baixista Dennis Irwin (falecido em 2008) e o tecladista Larry Goldings não mais o integrem.
Mas o trompetista Terell Stafford continua a brilhar ao lado do líder, e o notável Gary Versace (piano, órgão, acordeão) e Martin Wind (baixo) são substitutos à altura de Goldings e Irwin, como atesta o último CD do Arts & Crafts para o selo Palmetto, An attitude for gratitude, gravado em agosto do ano passado.
A atitude de gratidão expressa no título do álbum, segundo Wilson, tem a ver com a recuperação de sua mulher, Felicia, que se submeteu a transplante de célula-tronco, em face de um diagnóstico de leucemia (o casal tem uma filha e trigêmeos). Tal atitude também fica clara na escolha das baladas Happy days are here again (4m20), a segunda das 11 faixas do disco, e There’s no you (4m10), uma beleza de solo “a capella” de Stafford, no trompete com surdina.

Fora as baladas, o clima geral da sessão é mais para o allegro vivace, em relaxada camaradagem, seja nas telepáticas trocas de compassos entre os quatro seja na generosa dosimetria dos solos, inclusive do baixista Wind.
Os momentos mais envolventes e memoráveis do álbum são também as faixas mais longas: Little boy with the sad eyes (9m15), blues march do trompetista Nat Adderley (1931-2000), que recebe um tratamento bop bem soul, com a borbulhante combinação órgão-bateria impulsionando o solo de Stafford, craque do trompete, que conclui a peça em provocante diálogo com o baixista Wind (no arco); Bubbles (7m20), composição de Wilson inspirada num poema de Carl Sandburg, que o baterista-líder recita no final da peça, depois de animar com suas artimanhas percussivas solos do trompetista, de Versace (no acordeão) e do baixista.
Matt Wilson escreveu ainda para o novo disco No outerwear (6m10), paráfrase de Out of nowhere, e Stolen time (6m45), tema bluesy desenvolvido por Stafford no trompete, em tempo contido, contrastando com o crepitar frenético da bateria.
As demais faixas de An attitude for gratitude são: a saltitante Poster boy (5m40), de Gary Versace; a caribenha You bet (4m30), de John Scofield; Cruise blues (4m55), do baixista Wind; Teen town (4m10), de Jaco Pastorius, com referências explícitas à música fusionista do conjunto Weather Report, e destaque para o órgão Hammond de Versace; e a delicada Bridge over troubled water, de Paul Simon, jazzificada pelo trio (sem Stafford), com Versace ao piano.
Dan Bilawsky, de All about jazz, ao comentar o CD, escreveu: “O baterista Matt Wilson pode ser a suprema confluência humana de swing, espírito, humor e musicalidade. Wilson tem provado ser um daqueles poucos que conseguem equilibrar uma estética inside/outside, muitas vezes numa única peça de música”.
Assim, não é por acaso que — paralelamente ao último registro do Arts & Craft — Wilson esteja também em evidência como um terço do Trio M, ao lado da pianista Myra Melford (em geral mais out do que in) e do baixista Mark Dresser, no igualmente recém-lançado álbum The guest house (Enja), gravado em agosto do ano passado.
