Ahmad Jamal, “o Everest do piano moderno”
Nas notas do álbum A quiet time (Dreyfus, 2009), Eugene Holley, Jr chamou Ahmad Jamal, 81 anos, de “o Everest do piano moderno”. E mesmo quem considere exagerada a metáfora não pode ficar indiferente a qualquer novo registro desse mago do pianoforte, que dele extrai timbres e ressonâncias fascinantes, verdadeiras rapsódias marcadas por imprevisíveis variações de moods e de tempos.
Este é o caso de Blue moon: The New York session, o novo CD de Jamal, gravado em outubro do ano passado, e que vem de ser lançado pelo selo Jazz Village. Na companhia do sempre fiel percussionista Manolo Badrena, de Herlin Riley (bateria) e Reginald Veal (baixo) — que se consagraram nos conjuntos de Wynton Marsalis — o virtuose interpreta nove peças, das quais apenas três a partir de temas de sua autoria: Autumn rain (7m35), I remember Italy (13m05) e Morning mist (8m20).
As demais são tratamentos jamalianos de standards surgidos em filmes de Hollywood e na Broadway, mais um bebop tune. São elas: a faixa-título, Blue moon (9m55), de Richard Rogers, da década de 30; Invitation (13m10), de um filme de George Cukor, de 1950; Laura (6m30), a imortal melodia de Johnny Mercer, escrita para o filme de Otto Preminger, de 1944; This is the life (7m05), do musical Golden boy, de 1964, estrelado por Sammy Davis Jr.; Woody’n you (4m55), de Dizzy Gillespie; Gypsy (5m10).

Do alto do seu piano orquestral, acariciando ou golpeando as 88 teclas, Jamal atinge o ponto culminante de sua discografia, exibindo como nunca sua arte de fabricar joias melódico-harmônicas tendo com matéria-prima o veio mais do que explorado do Great American Songbook. Só que, desta vez, de modo ainda mais efervescente, ao enfatizar o crepitar da bateria de Riley, em conjugação com os efeitos percussivos criados por Badrena.
O tema de Blue moon, por exemplo, só surge ao fim de uma introdução de três minutos, altamente percussiva, sublinhada por um motivo de quatro notas em ostinato, transfigurando a batida canção numa peça inteiramente nova. Invitation ganha uma deliciosa interpretação flutuante em contraste com a féerie da seção rítmica. A reinvenção de Laura é também uma obra-prima de refinamento, numa sucessão de ângulos melódico-rítmicos inesperados.
Dentre as composições do pianista merece especial atenção I remember Italy — baseada num tema pastoral, de estrutura semelhante às peças do saudoso John Lewis (1920-2001). É a faixa mais “impressionista” do disco, e reflete sua atração pelo “sabor peculiar” daquele país, conforme ele mesmo explica.
Senhor do tempo e do espaço, gênio da arte percussiva, Ahmad Jamal é ouvido e respeitado pelos jazzófilos desde que foram editadas em disco faixas dos sets gravados em 1958, nos clubes Pershing, em Chicago, e Spotlight, em Washington, incluindo a sua clássica versão de Poinciana. Quando surgiu, alguns críticos consideravam-no, no máximo, um bom pianista de cocktail lounge. Até que Miles Davis afirmou, alto e bom som, que ele era o seu pianista favorito.
Em 1994, Jamal foi agraciado com o título de Jazz master pela National Endowmwent for the Arts, ao lado de Carmen McRae e Louie Bellson. É também detentor do Living jazz legend award do Kennedy Center e da Ordre des Arts et des Lettres da França. Mas ele está longe de pensar em descansar sobre os louros da fama. Basta conferir na sua agenda, que prevê apresentações nos Estados Unidos e na Europa até março de 2013.
