Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Jazz

Jimmy Owens promove nova releitura da obra de Thelonious Monk 

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro 

As releituras ou recriações das composições de Thelonious Monk (1917-1982) são desafios prazerosos a que se entregam jazzmen de temperamento especulativo, jovens ou veteranos. Na década de 60, o saxofonista soprano Steve Lacy (1934-2004) começou a se dedicar à dissecação sofisticada da monkiana. Depois da morte de Monk, o saxofonista tenor Charle Rouse (1924-1988), seu fiel escudeiro, liderou por bom tempo um repertory quartet, o Sphere, integrado por Kenny Barron (piano), Buster Williams (baixo) e Ben Riley (bateria).

Em 1994, o grande Wynton Marsalis reinventou com o seu septeto 14 peças do “Eremita do bebop”, cujo estilo de improvisar a partir de seus hipnóticos temas era, em si mesmo, uma recomposição, e não aquela variação mais ou menos “lógica” baseada na progressão dos acordes de base — que, além do mais, não existiam na sua concepção harmônica politonal e assimétrica.

Há muitos outros álbuns relevantes dedicados às composições de Monk, como o primoroso Fred Hersch plays Monk (Nonesuch, 1997), no qual o pianista, solo, dá o seu brilho pessoal a 12 gemas de Thelonious, incluindo Five views of Misterioso (isto mesmo, cinco lapidações diferentes de Misterioso). Dentre os mais recentes, lançados nestes últimos três anos, destaco: Monk (Xanadu, 2008), do trio do guitarrista Peter Bernstein; An open letter to Thelonious (Elm, 2008), do quarteto do mestre-pianista Ellis Marsalis; e Friday the 13th (Cuneiform, 2010), do Microscopic Septet, liderado por Phillip Johnston (sax soprano, arranjos).

O septeto liderado pelo trompetista-arranjador no CD ‘The Monk project’ tem Kenny Barron ao piano 
O septeto liderado pelo trompetista-arranjador no CD ‘The Monk project’ tem Kenny Barron ao piano 

Esta lista é agora enriquecida com o lançamento de The Monk project (IPO), CD de 10 faixas assinado por Jimmy Owens – veterano mestre do trompete e do flugelhorn, além de arranjador – à frente de um septeto integrado pelos seguintes ases: Kenny Barron (piano), Wycliffe Gordon (trombone), Howard Johnson (tuba e sax barítono), Marcus Strickland (sax tenor), Kenny Davis (baixo) e Winard Harper (bateria).

Owen, 68 anos, nascido no Bronx, foi agraciado em junho último com o título de jazz master, pela National Endowement for the Arts, ao lado de quatro outros herois do jazz: o baixista Charlie Haden, a vocalista Sheila Jordan, o saxofonista Von Freeman e o baterista Jack DeJohnette.

The Monk project começa com Bright Mississipi (5m40), arranjo de Eyal Kilner, que parte de um diálogo entre o sax de Strickland e os metais, com solos de Owens e do saxofonista. O líder é o arranjador de todas as demais faixas, com exceção da única peça não composta por Monk, It don’t mean a thing (5m40), de Ellington, na qual Jack Ramsey manteve a estrutura do arranjo original de Monk para orquestra, abrindo espaço para um solo de tuba de Howard Johnson.

Well you needn’t (6m45), é apresentada em tempo descontraído, só com o flugel de Owens e a seção rítmica, mais solo de Barron. Blue Monk (8m40) recebe um tratamento bem diferente, como se fora uma marcha fúnebre de Nova Orleans, destacando-se o trombone assurdinado de Wycliffe Gordon no estilo jungle ellingtoniano, à la Tricky Sam Nanton.

Stuffy turkey (6m55), um tema de Monk pouco tocado, tem solos de Strickland, de Kenny Davis e do líder. Pannonica (6m50), a balada escrita para a Baronesa Nica de Koenigswarter, tem um andamento ainda mais lento do que as versões monkianas. Por sua vez, a Let’s cool one (8m50) do arranjo de Owens, em 3/4, é mais movimentada do que normalmente.

Brilliant corners (9m45) ganha um arranjo que faz jus ao título, “allegro com brio”, animado pelas vergastadas de Winard Harper nos snare drums, e pelos solos do piano bluesy de Barron, de Owens, de Gordon e de Strickland, que trocam compassos antes do grand finale. Reflections (4m45) é introduzida, solo, pelo flugel do líder, até a entrada da seção rítmica, seguindo-se solos de Barron e de Gordon.

A última faixa do álbum — e também o seu ponto culminante — é Epistrophy (10m50), com arranjo bem original realçado pelo ostinato do piano, e performances notáveis de Gordon (mais uma vez no trombone wa-wa), do líder Jimmy Owens dos demais membros do septeto (com Howard Johnson no sax barítono).

Tags: jazz, jazzmen, jimmy owens, kenny barron, monk

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