Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Jazz

As ‘Variações Goldberg’ segundo Dan Tepfer 

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro 

Em julho de 2009, tive a oportunidade de ouvir, no Birdland, em Nova York, o pianista Dan Tepfer, então com 27 anos, num quarteto em que pontificavam os veneráveis Lee Konitz (sax alto) e Paul Motian (bateria).

De volta ao Brasil, ao comentar os sets que mais me agradaram naquele giro pelos clubes de Manhattan, escrevi nesta coluna (9/8/2009) que Tepfer surgia “como a nova estrela da brilhante constelação hoje dominada por Keith Jarrett e Brad Mehldau”.

Pois a reputação do jovem pianista está cada vez mais em alta, a partir do recente lançamento, pelo selo Sunnyside, do CD Goldberg Variations/Variations. Como o título indica, Tepfer executa, com técnica e toucher concertísticos, as 30 famosas variações que Johann Sebastian Bach escreveu, em 1741, como uma série de estudos para cravo (Clavier Übung, na partitura original), cada uma delas seguida, imediatamente, de uma improvisação livre mais ou menos tão concisa como a peça original.

O jovem pianista toca as 30 minipeças de Bach, e “comenta” cada uma delas
O jovem pianista toca as 30 minipeças de Bach, e “comenta” cada uma delas

O próprio pianista explica a sua concepção: “Ao invés de gravar as Variações Goldberg e, depois, escrever alentadas observações sobre como eu as sinto, estou expressando o que sinto através da música, com minhas improvisações sobre as variações de Bach. O desafio foi mudar de marchas, tocando essa música clássica que é um real teste para mim e tantos outros pianistas, e, no minuto seguinte, passar realmente a improvisar e a ser livre”.

O desafio foi, sem dúvida, superado com engenho e arte por Dan Tepfer, que tem sólida formação clássica e assiduidade nos clubes de jazz americanos e europeus. Nascido na França, mas filho de americanos, ele estudou no Conservatório Paul Dukas (Paris) e, depois, no New England Conservatory (Boston), onde concluiu o mestrado em jazz sob a orientação do eminente Danilo Perez. Em 2006, venceu a competição para solistas de piano do Festival de Jazz de Montreux (Suíça). Em 2009 — quando o apreciei ao vivo, e também no álbum Duos with Lee (Konitz) (Sunnyside) — ele já vinha tocando, em concertos nos Estados Unidos e na Europa, suas variações sobre as Variações Goldberg.

Na entrevista constante do livreto que acompanha o disco, Tepfer comenta: “As Goldbergs não são apenas sérias e dramáticas; são também divertidas e leves. Há um mundo inteiro nesta música”. E acrescenta que o uso que Bach faz das progressões harmônicas, a partir da Aria, é um processo musical não muito diferente do jazzístico, sobretudo quando se improvisa a partir de um standard, como, por exemplo, All the things you are.

Ao citar o tema de Jerome Kern, o pianista refere-se à obsessão de seu herói Lee Konitz por este e outros standards, que o saxofonista interpreta, noite após noite, disco após disco, sempre de modo diferente — e até com títulos diversos “(Thingin, em vez de All the things...)”.

A propósito, Lee Konitz disse uma vez: “Admiro particularmente os quartetos de cordas de Bartok. De fato, é uma das músicas mais swinging que já ouvi — além de Bach — na forma clássica”.

O swing de Dan Tepfer nas suas variações baseadas nas variações bachianas é mais explícito, evidentemente, nas fugas, fuguetas e nos tempos bem acelerados, como nas Improvisations 10, 12 e 14 — esta última de 1m29, quase 30 segundos a mais do que a variação original. A improvisação sobre a Variação 15 é a segunda mais longa (2m25) do álbum, e tem aquelas divagações românticas à la Keith Jarrett, ouvindo-se mesmo discretos murmúrios do pianista.

A coloração cromática da sua versão da Variação 21 (2m), por sua vez, reflete o impressionismo de Debussy. A Improvisação 25 (3m40) — a mais longa do CD — lembra as cerebrais especulações de Brad Mehldau, com uma das mãos em ostinato levemente dissonante. As improvisações anterior e posterior, de pouco mais de um minuto cada, são bem diferentes: a 24 é minimalista, harmonicamente assimétrica, algo entre Satie e Monk; a 26 é percussivamente tensa.

Goldberg Variations/Variations, de Dan Tepfer, é uma obra de arte que vai agradar não só aos cultores da chamada música séria mas também aos amantes do modo de expressão musical que hoje chamamos de jazz — ou seja a criação musical na base do aqui e agora, aquilo que na época de Bach se chamava de quodlibet

Tags: bach, CD, dan tepfer, jazz, pianista

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