Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Jazz

Bob Brookmeyer (1929-2011): Mestre sofisticado da arte do jazz 

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro 

No site do inesquecível trombonista-compositor Bob Brookmeyer, no último dia 16, pela manhã, foi publicada uma concisa nota, cujo primeiro parágrafo era o seguinte: 

“É com grande tristeza que compartilhamos a notícia de que Bob Brookmeyer morreu na noite passada, três dias antes do seu 82º aniversário. Bob foi uma força integral na música, participando de alguns dos maiores grupos da história do jazz que admiramos até hoje. Como compositor, arranjador ou trombonista sua voz é imediatamente discernível, logo na primeira nota, sempre provocando um sorriso e uma palavra: Brookmeyer”.

O som e a sofisticação do trombonista (de válvula) começaram a ser identificados e apreciados por jazzófilos e críticos mais exigentes quando ele substituiu o trompetista Chet Baker, em 1954, no já então famoso pianoless quarteto do saxofonista barítono Gerry Mulligan — a formação do estilo cool, versão West Coast, que melhor conciliou o a improvisão e o beat jazzísticos com a arte do contraponto.

O último registro do trombonista-compositor é o recém-lançado CD ‘Standards’ (Artistshare)  
O último registro do trombonista-compositor é o recém-lançado CD ‘Standards’ (Artistshare)  

A parceria Mulligan-Brookmeyer consolidou-se com o domínio que tinham da composição e do arranjo (ambos dedilhavam o piano), surgindo então o também admirável sexteto com Jon Eardley (trompete), Zoot Sims (sax tenor), Red Mitchell ou Bill Crow (baixo), Larry Bunker ou Dave Bailey (bateria). Os principais registros do sexteto são California Concerts, vol. 2 (Pacific Jazz/Blue Note), de dezembro de 1954, e Mainstream of jazz (Mercury/Universal), de 1955-56.

Em 1958, o camerístico trio do clarinetista-compositor Jimmy Giuffre (1921-2008) com Jim Hall (guitarra) e Ralph Peña (baixo), desfez-se. Giuffre resolveu reformar o trio com o valve trombone de Brookmeyer no lugar do contrabaixo, criando um interplay construtivista, totalmente original, documentado na sua Western Suite (Atlantic), dividida em quatro partes.

No início dos anos 60, ele voltou a cooperar com Mulligan — como arranjador e sideman — na memorável Concert Jazz Band dirigida pelo saxofonista, e integrada também por músicos do quilate de Clark Terry (trompete), Gene Quill (sax alto) e Mel Lewis (bateria). O álbum mais representativo dessa big band é At the Village Vanguard (Verve), gravado em dezembro de 1960.

O saxofonista Stan Getz e Brookmeyer eram soulmates, e suas afinidades podem ser apreciadas em dois preciosos álbuns da dupla: Stan Getz-Bob Brookmeyer: Recorded fall 1961 (Verve), com Steve Kuhn (piano), Roy Haynes (bateria) e John Neves (baixo); Bob Brookmeyer and Friends (Columbia), de 1964, na companhia de outros quatro músicos excepcionais: Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo), Gary Burton (vibrafone) e Elvin Jones (bateria).

A inteligência musical de Brookmeyer também prestou serviços à histórica Thad Jones-Mel Lewis Orchestra, que funcionou com essa denominação de 1965 a 1979, na catedral-porão do jazz em Nova York, o Village Vanguard, nas noites de segunda-feira, até a ida de Jones para a Europa, quando passou a ser a orquestra de Mel Lewis e, finalmente, com a morte do baterista em 1990, a até hoje esplêndida Vanguard Jazz Orchestra (VJO).

Nos últimos 30 anos de atividade — como músico e professor — ele passou muitos períodos na Europa, mas voltou aos Estados Unidos, definitivamente, na qualidade de professor de composição jazzística no afamado New England Conservatory. Na Holanda, fundou a New Art Orchestra (17 músicos europeus mais o baterista-arranjador John Hollenbeck), com a qual gravou três CDs para o selo Challenge (New works, Waltzing with Zoe e Get well soon), além de Spirit music (Artistshare) — este um dos cinco álbuns indicados para o Grammy 2007, na categoria Best large jazz ensemble.

A música mais “erudita” do compositor Bob Brookmeyer está muito bem representada na recente Music for string quartet and orchestra(Challenge, 2008), com o Gustav Klimt String Quartet e a Metropole Orchestra.

Sua última obra — na condição de arranjador e condutor — é o álbum Standards, que vem de ser lançado na série de projetos do selo-cooperativa Artistshare, fundado por Maria Schneider. São oito songs do chamado Great American Songbook interpretadas pelos 17 integrantes da New Art Orchestra, mais a vocalista Fay Claassen.

Os temas são Get out of townLove for saleI get a kick out of you (os três de Cole Porter), How deep is the ocean (Irving Berlin), I’m beginning to see the light (Duke Ellington), Come rain or come shine (Harold Arlen), Willow weep for me (Ann Ronell) e Detour ahead (Herb Ellis). 

Tags: bob brookmeyer, jazz, nota, standards, trombonista

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