Uri Caine volta a liderar trio acústico no CD ‘Siren’
Do incrível pianista Uri Caine pode-se esperar tudo. A discografia desse virtuose do teclado, de sólida formação clássica e jazzística (foi aluno do mestre francês Bernard Peiffer) registra “viagens” fascinantes pelos planetas de Bach (Variações Goldberg, CD duplo de 2000), Mahler (Urlicht/Primal light, 1998), Mozart (Plays Mozart, 2006) e de outros compositores eruditos.
Não se trata de confortáveis variações, em tempo de jazz, a partir de material do repertório clássico, como aquelas do trio Play Bach do pianista Jacques Loussier. São transformações totalmente originais da temática de Bach, Mozart, Mahler & Cia, que incluem momentos de improvisação livre — às vezes num clima celebratório de música “klezmer” — com a participação de solistas também não ortodoxos, como Dave Douglas (trompete), Mark Feldman (violino), Don Byron (clarinete). E a até do DJ Olive.
Caine, 55 anos, nascido na Filadélfia, também navega nas ondas da fusão jazzística eletrônica com backbeat, na liderança de sua banda Bedrock, com a qual já gravou — sempre para o selo Winter & Winter — os álbuns Shelf-life (2005) e Bedrock 3 (2003). E já andou até pelas escolas de samba e morros do Rio de Janeiro, em 2001, na companhia de Paulo Braga (bateria) e Jorge Helder (baixo), com os quais gravou o álbum Rio.

Assim, era de se esperar que, de repente, ele reaparecesse em disco à frente da formação padrão do jazz trio, o que não ocorria há mais de sete anos, quando a etiqueta alemã lançou o CD Uri Caine Trio live at the Village Vanguard (com Drew Gress, baixo; Ben Perowsky, bateria), gravado em maio de 2003.
O mais recente álbum do Uri Caine Trio intitula-se Siren (Winter & Winter, é claro), e foi gravado em setembro do ano passado. Perowsky continua supremo na bateria, e Gress é substituído à altura pelo também primoroso John Hébert. Das 12 faixas do disco, apenas uma — On Green Dolphin Street (5m50), desenvolvida em tempo veloz — não é assinada pelo pianista.
O telepático interplay do trio é evidente logo na primeira peça, Tarshish (2m20), em ritmo sempre lépido, variando entre 2/4, 5/8, 4/4 e 6/8. Interloper (4m15) e Crossbow (4m15) são pontuadas por arpejos saltitantes e clusters à la Don Pullen, com Perowsky respondendo sem titubeios, nas caixas e nos pratos, às provocações do líder.
A faixa-título (4m45) tem inspiração e tratamento minimalistas, com realce para o suculento solo do baixista. Foolish me (4m30) é de temperamento romântico, desenvolvida com articulação e toucher apropriados para um prelúdio de Chopin. A percussiva Succubus (4m20) e Hazy lazy crazy (4m30) — um blues bem assimétrico, pós-monkiano — contêm também inspirados solos de Hébert. Smelly (5m15) é de feição especulativa e harmonicamente politonal.
A última faixa do CD é Manual Defile (4m15). Não há, nas liner notes, nenhuma explicação do significado do título da peça, interpretada em tempo rápido, com batida variando em torno do 6/8, mais caribenha do que ibérica. Será que a inspiração veio de algum tema do grande compositor espanhol Manuel De Falla (1876-1946)? Ou defile é mesmo a palavra inglesa para desfiladeiro, ou passagem estreita?
