Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Jazz

Ron Carter e sua ‘Great big band’

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

Um dos maiores contrabaixistas de todos os tempos, dono de um som oblongo marca registrada, Ron Carter, 74 anos, ancorou, com o baterista Tony Williams, o “segundo grande quinteto” de Miles Davis (1963-68). Epítome de classe e elegância, ele preferiu, nestas duas últimas décadas, fazer discos em petit comité —sem alarde, mas sempre no nível habitual de apurada musicalidade.

E cito três álbuns particularmente relevantes: Mr. Bow-Tie (Blue Note, 1995), ao lado dos bem mais moços Gonzalo Rubalcaba (piano), Lewis Nash (bateria), Steve Kroon (percussão); Stardust (Somethin’else, 2001), com Benny Golson (sax tenor), Sir Roland Hanna (piano), Joe Locke (vibrafone) e Lenny White (bateria); The golden striker (Blue Note, 2002), em trio com Mulgrew Miller (piano) e Russell Malone (guitarra).

Mas no ano passado, sondado pelo compositor-arranjador Robert Bob Freedman, Carter topou escolher músicos de comum agrado da Primeira Liga para formar uma orquestra de 17 integrantes, e gravar, no Avatar Studios, Nova York, o agora lançado CD Ron Carter’s Great Big Band (Sunnyside). Neste álbum, o baixista não é propriamente o líder, mas algo mais do que um “primus inter pares”, já que os arranjos e a condução da big band são por conta de Freedman — mais conhecido como compositor de música para séries de televisão, embora também respeitado por suas incursões nos campos do jazz e da música erudita.

O celebrado baixista reaparece em CD orquestral com arranjos de Bob Freedman
O celebrado baixista reaparece em CD orquestral com arranjos de Bob Freedman

Sem falar na luxuosa “seção rítmica” (Carter, Mulgrew Miller e Lewis Nash), a escalação da Great Big Band — com seis palhetas, quatro trompetes e quatro trombones — inclui, entre outros sidemen de renome, os saxofonistas Jerry Dodgion, Steve Wilson, Wayne Escoffery, Scott Robinson e Charles Pillow; os trompetistas Greg Gisbert e Tony Kadleck; e os trombonistas Steve Davis e Douglas Purviance.

A orquestra interpreta 13 temas marcantes, surgidos em épocas distintas. Os mais clássicos são St. Louis blues (4m30), de W.C. Handy, Caravan (3m40), de Duke Ellington-Juan Tizol, e Opus one (3m35), de Sy Oliver. O bebop está presente em Con alma (4m27), de Dizzy Gillespie, Sweet Emma (5m15), de Nat Adderley, e The eternal triangle (3m), de Sonny Stitt. Quatro outros grandes jazzmen são invocados: Wayne Shorter, em Footprints (4m55), John Lewis, em The golden striker; Gerry Mulligan, em Line for Lyons (3m35); Tom Harrell, em Sail away (4m20). Carter colabora com Opus 1.5 (3m40) e Loose change (4m); Freedman assina Pork chop (3m45).

Os arranjos e solos não são rebuscados nem longos, mas a expertise e a arte do swing são evidentes, desde Caravan, a primeira faixa, a Loose change, a última, ambas com realce para o sax soprano de Jerry Dodgion e o trombone de Steve Davis. A única faixa que passa de cinco minutos é Sweet Emma, com tratamento bem soul, e intervenções dos saxes de Escoffery (tenor) e Jay Brandford (barítono), e do trompete de Gisbert.

Os momentos especialmente cativantes do CD são: a assimétrica Pork chop, com solos dos saxes tenores e de Ron Carter; o original arranjo de Con alma, com a introdução em fanfarra, a “ponte” destinada às palhetas, e solos de Mulgrew Miller, Gisbert, Steve Wilson (sax alto) e do grande baixista; Footprints, apresentada de maneira politonal e desenvolvida em 6/8; Opus 1.5, balada de Carter, que sola logo depois de Charles Pillow (no corne inglês).

Em suma, Ron Carter’s Great Big Band é um CD de jazz orquestral para ninguém botar defeito, com um saboroso menu selecionado pelos chefes Ron Carter e Bob Freedman. 

Tags: álbuns, baixista, carter, freedman, jazz, NOVA YORK

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