Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Jazz

Réquiem para Paul Motian

Jornal do BrasilLuiz Orlando Carneiro

Mestre da arte percussiva e sofisticado compositor, o baterista Paul Motian era uma lenda viva do jazz até a última terça-feira. Ele morreu, aos 80 anos, vítima de síndrome mielodisplásica — uma doença degenerativa que atinge a medula óssea.

Há quatro meses, Motian parecia muito bem disposto — embora como sempre impenetrável, atrás dos inseparáveis óculos escuros — no Village Vanguard, sua “segunda casa” em Nova York, num set de mais de uma hora, à frente de um novo conjunto. Ao seu lado, músicos que poderiam ser seus filhos, como os saxofonistas Bill McHenry e Chris Cheek, o incrível pianista Jacob Sacks e o baixista Thomas Morgan — os dois últimos na faixa dos 30 anos.

Um dos músicos mais singulares do jazz contemporâneo, Motian deixa como legado uma preciosa discografia. Desde quando, entre 1959 e 1961, formou com o pianista Bill Evans e o contrabaixista Scott LaFaro aquele fascinante trio que estabeleceu padrões tão elevados de conteúdo musical e de interação entre os “atores” desse tipo de conjunto, que os trios mais convencionais, com baixo e bateria funcionando como metrônomos, passaram a ser tão obsoletos como os gramofones. São antológicos os registros do Bill Evans Trio, num domingo à tarde de junho de 1961, no Village Vanguard, com as primorosas interpretações de Waltz for Debby e Gloria’s step.

O baterista, que morreu aos 80 anos, foi um dos mais singulares músicos de jazz
O baterista, que morreu aos 80 anos, foi um dos mais singulares músicos de jazz

Paul Motian nada tinha a ver com o protótipo do jazz drummer fixado por Gene Krupa, Buddy Rich e Louie Belson, afeitos a malabarismos com as baquetas e a longos solos que levantavam as plateias. Muito pelo contrário, com um gestual discreto, criava desenhos rítmico-melódicos pontilhistas em clima camerístico, por sobre um fundo claro-escuro, em que nuvens sonoras sombrias eram iluminadas, de quando em vez, por relâmpagos providos pelos seus címbalos mágicos. Foi um ás do abstracionismo lírico na música, um Paul Klee do jazz.

Já contei aqui que, em 2003, no Chivas Jazz Festival (Rio e São Paulo), Motian apresentou a sua Electric Bebop Band — um sexteto com duas guitarras (Steve Cardenas e Jakob Bro), dois saxes (Chris Cheek e Tony Malaby), mais um contrabaixo (Anders Christensen). Na ocasião, perguntei-lhe como concebera a inusitada combinação, em termos de sonoridade e de harmonia. O austero baterista, avesso a entrevistas, limitou-se a responder: “Comecei com uma guitarra. Depois passaram a ser duas. Aí, acrescentei um segundo sax. E gostei do som...”.

Um ano depois, esse grupo virou septeto, com a adição de mais um guitarrista, Ben Monder, e a troca de Christensen por Jerome Harris. O conjunto passou a se chamar, simplesmente, Paul Motian Band, e gravou o CD Garden of Eden (ECM), obra-prima da última fase do baterista-arranjador-compositor, contendo sete peças de sua lavra, mais recriações reverenciais de obras de Charles Mingus (Pythecanthropus Erectus e Goodbye pork pie hat), de Thelonious Monk (Evidence) e de Charlie Parker (Cheryl).

Dos álbuns ainda mais recentes editados pela ECM merecem destaque especial Time and time again (2006), com os grandes Joe Lovano (sax tenor) e Bill Frisell (guitarra), e Lost in a dream (2009, ao vivo, no Village Vanguard), com Chris Potter (sax tenor) e Jason Moran (piano).

Os jazzófilos mais velhos e mais exigentes não deixam muito tempo sem tocar o precioso CD Monk in Motian (JMT), gravado em 1988, pelo trio Motian-Lovano-Frisell, tendo como convidados o saxofonista Dewey Redman e a pianista Geri Allen (cada um em duas faixas, separadamente).

Tags: baterista, jazz, lenda, medioplástica, motian, óculos

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