Phil Woods completa 80 anos ainda na “estrada”
O mestre do sax alto Phil Woods, sempre de bom humor, assim introduz o seu site, referindo-se às novas tecnologias da era virtual que ele aos poucos vai dominando: “Como disse o gigante do sax Zoot Sims (1925-1985) ao assistir à descida dos astronautas na Lua: ‘Vejam só! Uau! E eu aqui ainda tocando Indiana’”!
Na semana passada, o mais famoso dos herdeiros estilísticos diretos de Charlie Parker (1920-1955) completou 80 anos de idade e 57 de carreira, em plena atividade, apesar dos pulmões bem avariados pelo antigo hábito de fumar, que o obrigam a usar uma maquineta portátil de oxigênio nos intervalos de suas apresentações.
De sua agenda, neste domingo, consta uma jam session no Zoot Festival (dedicado à memória de Zoot Sims), na East Stroudsburg University, Pensilvânia, ao lado de Lew Tabackin e Bob Dorough, entre outros veteranos. É até bem possível que improvisem sobre Indiana — ou a partir de Donna Lee, a paráfrase parkeriana daquele tema do American Songbook.
Como Indiana, Phil Woods é ageless, atemporal. E, portanto, contemporâneo, conforme o conceito de contemporaneidade aplicado a tudo aquilo que resiste ao teste do tempo. Ele era “moderno” no período 1956-1961, quando integrou a seção de palhetas das big bands de Dizzy Gillespie e de Quincy Jones, respectivamente.

Nas décadas de 60 e 70, Woods já era o mais cultuado sax alto neo bop da cena jazzística (viveu na França de 1968 a 1972), disputando a supremacia com Paul Desmond e Lee Konitz, cultores de uma estética mais “cool”. Octogenário, continua “moderno”, recusando-se a viver das glórias do passado, aberto à convivência com músicos que poderiam ser seus netos.
A saxofonista-prodígio Grace Kelly (nascida Grace Chung, de pais coreanos) foi apadrinhada por Phil Woods em 2006, quando tinha 14 anos, e era aluna do Stanford Jazz Residency Program. Em junho do ano passado, convidou-o para gravar um álbum-homenagem, intitulado Man with the hat, lançado em janeiro último pelo selo Pazz.
A faixa-título, bem bop, é uma homenagem explícita ao padrinho, que participa ainda de outras três das sete faixas do CD: Love song, Ballad for very sad and very tired lotus-eaters (de Billy Strayhorn) e People time (de Benny Carter) — nesta última apenas “colorindo” o vocal de Grace Kelly, que deixa o sax alto de lado.
A discografia de Woods é muito extensa, mas também dispersiva. O álbum que marcou seu retorno aos Estados Unidos, em 1974, Musique du bois (32 Jazz), é particularmente notável pelas versões de Samba du bois (de sua pena), Nefertiti (Wayne Shorter) e Airegin (Sonny Rollins), com o apoio de mestres Jaki Byard (piano), Richard Davis (baixo) e Alan Dawson (bateria).
Uma boa seleção de seus quintetos dos anos 80-90 — sempre com os fiéis parceiros Bill Goodwin (baixo) e Steve Gilmore (bateria) — está no CD Into the woods/The best of... (Concord). Nas oito faixas gravadas entre 1987 e 1995, destacam-se também Tom Harrell (trompete, flugel) e os pianistas Hal Galper, Bill Charlap e Jim McNeely.
Da produção dos últimos 10 anos, são recomendados os álbuns American Songbook, Vol.1 (Kind of Blue, 2002), do quinteto com Brian Lynch (trompete) e Charlap, e This is how I feel about Quincy (Jazzed Media, 2004), de um noneto formado a partir deste mesmo quinteto fora de série.
Em 1987, o italiano Paolo Piangiarelli fundou a etiqueta Philology, com o objetivo básico de gravar concertos na Europa de Phil Woods, e também de Lee Konitz e Chet Baker. O jazzófilo que quiser adicionar à sua discoteca (ou iPod) raros registros do saxofonista do boné de couro, na companhia de renomados jazzmen italianos, deve consultar o catálogo da Philology. Especialmente o CD Phil Woods/ Lee Konitz/ Enrico Rava Sextet (com Stefano Bollani ao piano), no Festival de Umbria, 2003, em longas interpretações de Certi angoli segreti (Rava), Retrato em preto e branco (Tom Jobim) e Poinciana, o standard que Ahmad Jamal transformou em jazz tune.
