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A “Fonte da Juventude” do lendário Roy Haynes

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Há 12 anos, no saudoso Free Jazz Festival, no Museu de Arte Moderna do Rio, ficamos todos impressionados com a saúde, a energia e a técnica de Roy Haynes, à frente de um quarteto formado pelos garotos Ron Blake (saxes), David Kikoski (piano) e Dwayne Burno (baixo). 

Ele tinha então 74 anos, e dividia com Max Roach (1924-2007) o trono real da bateria jazzística, sempre fazendo de seu complexo instrumento de percussão (bass drum incisivo, com “tiros” inesperados; três címbalos de tamanhos diversos; três tontons, um snare drum e o hi-hat) um potente gerador rítmico-melódico.

Em janeiro último, pouco antes de completar 86 anos, o lendário baterista convocou o quarteto que ele batizou apropriadamente de Fountain of Youth (Fonte de Juventude) para gravar o CD intitulado Roy-Alty — jogo de palavras que se traduz por “realeza”. Ao seu lado, os jovens “súditos”, com os quais vem fazendo música, em pé de igualdade, já há algum tempo: Jaleel Shaw (sax alto), Martin Bejerano (piano) e David Wong.

Haynes aproveitou mais esta sessão da etiqueta francesa Dreyfus para fazer um álbum muito especial, convidando os também consagrados Chick Corea e Roy Hargrove para atuarem, respectivamente, em duas e seis das 10 faixas. O pianista — que gravara com Haynes os antológicos Now he sings, now he sobs (Blue Note, 1968) e Remembering Bud Powell (Stretch, 1977) — interpreta em duo com o baterista uma versão muito original da monkiana Off minor (8m40), e ambos inventam, na hora, All the bars are open (7m40), cujo título de duplo sentido deixa claro que os compassos (bars) são flexíveis.

O baterista lança CD com trio de jovens mais Chick Corea e Roy Hargrove 

O trompetista Hargrove, 42 anos, um dos grandes nomes de sua geração, brilha — ao lado do rising stars Jaleel Shaw e Martin Bejerano, quase meio século mais jovens do que o líder — em Grand Street (5m55), de Sonny Rollins; numa versão romântica, no flugelhorn, de These foolish things (8m20); em Milestones (5m25), de Miles Davis, em estilo bop clássico, o tema exposto como na gravação histórica de Parker-Davis, de 1947; em Tin-tin-deo (8m40), a emblemática peça afro-cubana de Gil Fuller-Chano Pozzo lançada pela big band de Dizzy Gillespie, em 1946; em Equipoise (6m45), composição do pianista Stanley Cowell; e numa fervente versão de Passion dance (7m), de McCoy Tyner, com a colaboração de Marcus Strickland (sax tenor), de Roberto Rodriguez (piano) e das congas de Craig Haynes, filho de Roy.

O quarteto básico de Haynes, por sua vez, interpreta a balada They call the wind Mariah (3m40), tema escrito por Frederick Loewe para um antigo musical da Broadway, e Pinky (3m50), do especialista em trilhas sonoras para filmes Afred Newman.

Em suma, Roy-Alty é um álbum de fabricação esmerada, de conteúdo saboroso, temperado por hard bop da melhor qualidade, altamente indicado para jovens e idosos, sem contraindicações.



Tags: bateria, chick corea, jazz, quarteto, roy haynes

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