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Estrela holandesa do saxofone brilha no céu do jazz

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Quando escrevi, em 1989, o livrinho Elas também tocam jazz (Jorge Zahar Ed.), foi impossível destacar — numa série de 24 pequenos retratos de mulheres instrumentistas — uma saxofonista de relevo além de Jane Ira Bloom, então com 34 anos, e já classificada na eleição anual dos críticos promovida pela Donwbeat entre os melhores especialistas do sax soprano, logo atrás de Wayne Shorter e Steve Lacy.

A veterana Bloom continua a merecer a admiração da crítica. No mais recente poll da DB (agosto) conquistou o segundo lugar na sua especialidade, depois de Dave Liebman, mas à frente de Shorter e de Branford Marsalis. No mesmo certame, dentre os 12 mais votados na categoria “saxofone alto/estrela em ascensão (rising star)” contavam-se nada menos de quatro jazzwomen: Tia Fuller (3ª), Grace Kelly (4ª), Matana Roberts (8ª) e Sharel Cassity (12ª).

No entanto, a chamada bíblia do jazz continua sem dar a devida atenção — ou audição — a pelo menos três brilhantes saxofonistas europeias que têm alta cotação nos clubes e festivais do Velho Continente, e que atuam também ao lado de consagrados músicos americanos. São elas a francesa Geraldine Laurent (cujo Time Out Trio grava para a Dreyfus), a alemã Karolina Strassmayer (solista no premiado CD Symphonica, de Joe Lovano com a WDR Orchestra de Colônia) e a holandesa Tineke Postma.

Esta última, 33 anos, projetou-se com o álbum The traveller (Challenge), de 2009, no comando do seu “quarteto internacional”, ao lado dos eminentes Geri Allen (piano), Scott Colley (baixo) e Terri Lyne Carrington (bateria). Ela vive hoje na ponte aérea Amsterdam—Nova York, depois de se formar no conservatório da cidade em que nasceu, e de ter completado os estudos na Manhattan School of Music, sob a orientação de mestres Dave Liebman, Dick Oatts e Chris Potter.

Tineke Postma lança seu quinto CD como líder

Tineke Postma lançou este ano o seu quarto CD para a Challenge e o quinto como líder, à frente de seu combo europeu (Marc van Roon, piano; Frans van der Hoeven, baixo; Martijn Vink, bateria). The dawn of light é o título dessa seleção de 10 faixas, das quais seis assinadas pela líder, duas por van Roon, um tema de Thelonious Monk (Off minor) e outro, Canção de amor (6m35), extraído da Floresta Amazônica de Villa-Lobos.

A saxofonista holandesa toca sax alto em oito faixas, exibindo sua arte no sax soprano em The observer (6m50), em Leave me a place underground (5m35), e na segunda parte de Tell it like it is (6m10), todas de sua autoria. Leave me a place..., inspirada num poema de Neruda, é particularmente interessante por ser um “pas de deux”, no qual Postma enfeita, com atentos e delicados comentários melódicos, o recitativo da convidada Esperanza Spalding, que não se apresenta com o seu já famoso contrabaixo, mas usa apenas a voz — outro instrumento que também domina, inclusive em scat singing.

No sax alto, Tineke Postma afirma-se, cada vez mais, como discípula do primoroso Lee Konitz. Não só em termos de técnica e de sonoridade cristalina (com efeitos sônicos inesperados) mas também de filiação àquele “abstracionismo lírico” que, nas artes plásticas, teve Kandinski e Paul Klee como expoentes.

Essa estética fica clara logo nas três primeiras faixas do álbum: a Canção de Villa Lobos (no CD The traveler ela interpretou Adagio 13, de um quarteto de cordas do compositor brasileiro); Falling scales (7m10), ainda mais movimentada, com mudanças de tempo e de moods inesperadas; a meditativa Before de snow (4:20).

Na apresentação de The dawn of light, Tineke explica que suas composições “são mais sketches do que songs, o que indica serem sempre o início de viagens musicais”. Esta concepção é desenvolvida pelo quarteto na linha da improvisação não sujeita à métrica dos choruses, sobretudo nas faixas superiores a cinco minutos.

Em geral, a saxofonista expõe e comenta os temas, e passa a interagir com seus excelentes parceiros num clima ritmicamente denso, mantido pela bateria latejante de Vink e pelo baixo woody, à la Dave Holland, de van der Hoeven.

O pianista van Roon provê um rico e sofisticado complemento melódico-harmônico, e tem generoso espaço para solar. Mas a líder interfere, quando bem entende, em solos ou comentários, que pendem entre o lirismo konitziano e o fraseado politonal. O tratamento bem free de Off minor, num duo sax alto-piano, é um bom exemplo das “viagens” que Tineke Postma gosta de arriscar.



Tags: downbeat, jazz, quarteto, saxofonista, tineke

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