Jornal do Brasil

Sábado, 17 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

Jazz

Na ‘Bootlegs series’, ao vivo, o “segundo grande quinteto” de Miles Davis

Luiz Orlando Carneiro

Quem já tem meia dúzia (ou uma dúzia) dos principais discos de Miles Davis (1926—1991) — o músico-persona que melhor usou e abusou do seu charme e da sofisticação do jazz moderno — deve correr atrás da recém-lançada coleção Live in Europe 1967: The bootleg series?

A resposta é sim, ainda que um sim não necessariamente tão abrangente como esta edição da Legacy Recordings: três CDs com as gravações dos concertos de 28 de outubro, 2 e 6 de novembro de 1967, em Antuérpia (Bélgica) e Paris (os dois últimos), mais um DVD de apresentações da mesma época na Alemanha e na Suécia. Pelo menos dois desses “shows” do chamado Second great quintet do trompetista (Wayne Shorter, sax tenor; Herbie Hancock, piano; Ron Carter, baixo; Tony Williams, bateria) tinham sido “publicados” em álbuns não autorizados, de reduzida tiragem.

Daí, no título da série, a palavra bootleg, cuja origem está ligada à prática de esconder frascos nos canos das botas, nos Estados Unidos da década de 20, quando da proibição do fabrico, transporte e venda de bebidas alcoólicas.

O trompetista reinventava noite após noite os seus temas, em concertos de 1967, na Europa
O trompetista reinventava noite após noite os seus temas, em concertos de 1967, na Europa

Como sabem os iniciados, o “segundo grande quinteto” de Miles (1965-68) foi responsável por quatro LPs que registraram, num nível excepcional de engenho e arte, o desenvolvimento daquele modo de improvisação climática, pantonal (ou modal), que brotara, em 1959, no célebre álbum Kind of Blue (com John Coltrane, Cannonball Adderley e Bill Evans). Os quatro discos primorosos que o “segundo grande quinteto” gravou — todos no estúdio da Columbia — foram E.S.P (janeiro de 65), Miles smiles (outubro de 66), Sorcerer (maio de 67) e Nefertiti (julho de 67).

E como atuava esse dream quintet ao vivo, sobretudo perante plateias europeias que cultuavam Miles como um deus e Wayne, Herbie, Tony e Ron como seus profetas?

O próprio líder responde à pergunta: “Eu adorava esse conjunto, cara, porque se a gente tocasse uma música o ano todo, e você a ouvisse no início do ano, não a reconheceria no fim. Quando eu tocava com Tony, que é um geniozinho, tinha de reagir em minha atuação à atuação dele. E isso acontecia com todo o conjunto. Assim, nossa maneira de tocar juntos mudava o que tocávamos a cada noite, toda noite, durante aquele tempo” (Miles Davis: A Autobiografia, Ed. Campus, 1991, p.242).

Basta encomendar e ouvir algumas faixas do CD nº 1 da Bootleg series — o concerto de Antuérpia, com nove faixas — para se compreender a extensão do que Miles queria dizer com “the music we did together changed every fucking night”.

Footprints (9m35), de Wayne Shorter, é interpretada numa dimensão inteiramente nova daquela apresentada em Miles smiles, um ano antes, com um solo de quase três minutos do saxofonista-compositor que é tão ousado, tão livre, como os solos dele no quarteto Footprints, que comanda há mais de 10 anos.

Round midnight (7m35) é reinventada pelo trompete então inefável de Miles, a partir de uma preâmbulo em duo com o piano de Hancock de mais de dois minutos, ao fim dos quais o tema de Monk explode num uníssono trompete-sax tenor que impulsiona outro “vôo livre” de Shorter, imprevisível e em tempo rápido. Nada em comum com a versão (uma consumada obra-prima) de 1956, do “primeiro grande quinteto” (com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones).

A música do second great quintet ao vivo, como atesta o concerto de Antuérpia, é um devenir constante. Além das peças acima mencionadas, recebem “tratamento de choque” surpreendente, com base em centros tonais cada vez mais móveis, Agitation (de E.S.P.), No blues (de Kind of blue), Riot (de Nefertiti), On Green Dolphin Street (1958), Masqualero (de Sorcerer) e Gingerbread boy (de Miles smiles).

Ao comentar The bootleg series, Ted Panken assinalou, com propriedade, que “esses virtuoses atuavam no palco como num laboratório sem regras (freewheeling), no qual tomavam decisões coletivas instantâneas, navegando por todas as escolhas harmônicas e rítmicas disponíveis a qualquer momento”.

Tags: 1967, bootlegs, europe, jazz, live in, miles davis

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