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Três mestres gravam CD que faz jus ao título: ‘Isto é jazz’

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Não é a primeira vez que o trio de notáveis formado por Donald Harrison (sax alto), Ron Carter (baixo) e Billy Cobham (bateria) se reúne para gravar um disco. Heroes (Nagel-Heyer, 2004) e New York cool: Live at the Blue Note (High Note, 2005) foram álbuns bem divulgados e bem recebidos pela crítica especializada, como não podia deixar de ser.

Mas o recém-lançado This is jazz, registro de março deste ano — também da griffe Blue Note-High Note — já anuncia, no título, que se trata de jazz do bom e do melhor. Ou como sublinham os produtores, na sua apresentação, de música resultante de “improvisação exploratória” e “interação” (interplay) de que só são capazes os jazzmen mais maduros.

This is jazz contém seis faixas, das quais cinco entre 8m40 e 11m05. A mais curta, uma versão do standard My sunshine (5m30), é, na verdade, um solo magistral de Ron Carter, ou melhor, uma aula magna de contrabaixo. Como compositor, Carter assina os dois primeiros temas da seleção: Cut & Paste (9m25) e MSRP (9m50).

As outras peças interpretadas por esse trio em estado de graça — em que a personalidade ímpar de cada um se destaca sem perturbar a harmonia do conjunto — são Seven steps to heaven (11m30), de Miles Davis—Victor Feldman, circa 1963; I can’t get started (8m45), a balada inesgotável de Vernon Duke; Treme swagger (11m05), de Donald Harrison, um festivo gumbo musical, com batida second line, fazendo jus não só à sua fama de exímio solista mas também ao seu título de Indian chief do Mardi Gras de Nova Orleans.

Donald Harrison, Ron Carter e Billy Cobham, de novo, no Blue Note

Harrison, hoje com 51 anos, era um daqueles young lions de técnica excepcional que revigoraram a chamada mainstream do jazz, no início da década de 80. Ele nasceu em Nova Orleans, e continua muito ligado às tradições da Crescent City, assim como os irmãos Marsalis (o trompetista Wynton e o saxofonista Branford) e o trompetista Terence Blanchard. Todos eles foram alunos do chefe da família Marsalis, o pianista Ellis, 76, há muito tempo professor e diretor do Instituto de Jazz Studies da Universidade de Nova Orleans. Donald, Wynton, Branford e Terence foram também “alunos” da “universidade” do lendário baterista Art Blakey, o quinteto The Jazz Messengers.

Em agosto de 1996, Donald Harrison criou a marca Nouveau swing — título do CD que gravou para a Impulse, em quarteto com Anthony Wonsey (piano), Christian McBride ou Reuben Rogers (baixo), e Carl Allen (bateria). O conceito básico do Nouveau swing era, segundo o saxofonista alto, a apropriação dos ritmos que “estão no ar”, até o do hip hop, e sua submissão ao swing do jazz, com a concessão aos solistas de ampla liberdade de improvisação.

Em This is jazz, este conceito é desenvolvido logo na primeira faixa, Cut & paste, com as vergastadas da bateria de Cobham esquentando o ambiente, e Harrison solando de maneira bem free, com deferências a Charlie Parker e a Ornette Coleman. MRSP é a faixa mais bluesy do álbum, com solo-introdução de Carter antes do “discurso” do líder. A melodia de I can’t get started é exposta por Harrison de modo lânguido e de forma oblíqua, por sobre as ressonantes cordas do baixo, e estendida num solo cativante. A interpretação pelo trio de Seven steps to heaven é fulgurante, com direito a exibição especial de Billy Cobham, cuja atuação em todo o álbum, aliás, é uma exibição contínua e sofisticada da arte percussiva, no nível de um Roy Haynes.

Ao comentar o CD para o site All about jazz, Greg Simmons concluiu com propriedade: “Este disco reúne três mestres mostrando ao mundo todo como essa música é realmente tocada. Combinando um repertório de primeira classe, doses iguais de solos e de conjunto excepcionais e uma energia que devia ser engarrafada, This is jazz realmente cumpre o que seu título promete”.



Tags: billy cobham, donald harrison, jazz, ron carter

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