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Sonny Rollins lança o volume 2 de ‘Road shows’

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Como diria Camões, “cesse tudo que a antiga Musa canta, que outro valor mais alto se alevanta”. Esse valor mais alto, na cena jazzística, é Sonny Rollins, o Saxophone colossus, no álbum Road shows, vol. 2 (Doxy/Emarcy), com lançamento oficial marcado para a próxima terça-feira. Trata-se de um registro parcial do sensacional concerto realizado no Beacon Theatre, em 10 de setembro do ano passado, para comemorar o 80º aniversário da maior figura viva (e ativa) do jazz. 

E tudo indica que o novo CD, de mais de uma hora de duração, vai ser eleito o melhor lançamento do ano pela crítica internacional especializada, assim como ocorreu, em 2009, com o primeiro “Road shows” — uma seleção de gravações inéditas feita pelo próprio Newk de performances ao vivo na Europa e no Japão (1980-2000) e no Carnegie Hall (2007).

Das seis faixas do novo álbum, a primeira e a última — They say it's wonderful (13m50) e St. Thomas (2m40) — foram gravadas no Festival de Sapporo, Japão, um mês depois do concerto de Nova York. 

Novo CD contém faixas do concerto de seu 80º aniversário

Mas o núcleo de Road shows, vol. 2 são os 48 minutos captados, há um ano, no Beacon: In a sentimental mood (5m), que na verdade é um delicado solo do convidado Jim Hall (parceiro de Rollins no histórico LP The Bridge, 1962) com a seção rítmica formada por Kobie Watkins (bateria), Bob Cranshaw (baixo) e Sammy Figueroa (percussão); Sonnymoon for two (21m) — o tema bluesy marca registrada de Newk — com a ruidosa aparição do também octogenário Ornette Coleman (sax alto), mais o idem Roy Haynes (bateria) e o “jovem” Christian McBride (baixo); I can’t get started (8m10) e Raincheck (12m55) — de Billy Strayhorn — tendo como convidado o trompetista Roy Hargrove (flugelhorn, trompete) e, de volta, a seção rítmica habitual do tenorista (Russell Malone, guitarra; Cranshaw, Watkins e Figueroa).

O ponto culminante do disco é o encontro Sonny-Ornette. O dono da noite no Beacon expõe o conhecido tema de Sonnymoon e começa a solar em trio, com McBride e Haynes, por uns quatro minutos. Interrompe o solo para dizer que soube ter alguém “aqui nesta casa querendo me desejar um happy birthday. Não surge ninguém, e Rollins engata um outro solo, com o tema mais ou menos em ostinato, por mais quatro minutos, até que aplausos anunciam a entrada no palco do vanguardista Ornette. Na altura dos 8m45 da performance, o sax alto rascante e politonal do padroeiro do free jazz inicia o seu “recado” de quase três minutos. O aniversariante “agradece” num breve stateman, e Coleman retruca com um incrível solo harmolódico. Sonny tem a “palavra final” a partir dos 15m50, concluindo o inflamado “discurso” uns cinco minutos depois, voltando ao tema em uníssono com o eminente convidado-surpresa.

Na resenha dessa performance para a Jazz Times deste mês, Thomas Conrad anotou: “Coleman é o id, puro impulso; Rollins é o superego, a voz da razão. Depois de 22 minutos, eles gritam o tema juntos, num uníssono final solto, feroz, e o Beacon Theatre vai à loucura”.

Raincheck recebe um tratamento festivo e original, com aquecimento das congas de Figueroa e da bateria de Watkins. Os solos iniciais (dois minutos cada) são de Roy Hargrove e Russell Malone. O sax tenor de Rollins surge imponente, e abre caminho para uma impressionante troca de compassos com o trompete de Hargrove, por mais de sete minutos.

A outra faixa particularmente notável é It’s wonderful, a primeira do disco, gravada no Festival de Sapporo. O tema é exposto e desenvolvido por Rollins “a capella”; Russell sola por mais de três minutos; Rollins então provoca o baterista para uma longa troca de compassos, que termina num solo de Watkins; Rollins reaparece, troca compassos com Malone, e conclui com uma fascinante aula sobre a dissecação melódico-rítmica de um standard.

(Road shows, vol.2 pode ser ouvido, na íntegra, na internet, no site da NPR, em First listen).



Tags: jazz, road shows, sonny rollins

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