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Gerald Wilson, 93 anos, lança disco com filho e neto, também músicos

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

O lançamento do quinto CD gravado para o selo Mack Avenue pela orquestra de Gerald Wilson, desde 2003, seria, por si só, um evento digno de registro muito especial. O lendário big band leader, compositor e arranjador completa neste domingo 93 anos de vida, dos quais mais de 70 como músico profissional. Ele integrou a orquestra swing de Jimmy Lunceford, no fim da década de 30, como trompetista e arranjador, substituindo Sy Oliver; tocou nas bandas de Count Basie e Dizzy Gillespie nos anos 40; fundou e liderou na California, na década de 60, uma notável big band, bem documentada pela etiqueta Pacific Jazz, e que tinha como solistas Westcoasters do quilate dos saxofonistas Bud Shank, Harold Land e Teddy Edwards, do guitarrista Joe Pass e do trompetista Carmell Jones.

O álbum Legacy, disponível desde junho nas lojas virtuais, é um acontecimento extraordinário por reunir o patriarca Gerald e dois descendentes em linha direta, herdeiros em vida do seu legado musical: Anthony Wilson, 43 anos, seu filho, guitarrista do primeiro escalão, mais conhecido por sua associação com Diana Krall, também arranjador e compositor; Eric Otis, neto de Gerald e de Johnny Otis (pioneiro do rhythm & blues), e filho de Shuggie Otis (multinstrumentalista e também funk singer-songwriter).

‘Legacy’ é o quinto registro da orquestra do lendário ‘jazzman’ desde 2003

A big band de Gerald é formada por 20 músicos: 10 na seção de metais, seis saxofonistas, mais a luxuosa “seção rítmica” constituída pelo filho (guitarra), Renée Rosnes (piano), Peter Washington (baixo) e Lewis Nash (bateria). Dentre os instrumentistas de sopro, destacam-se Sean Jones, Jeremy Pelt e Freddie Hendrix (trompetes), Dennis Wilson e Luis Bonilla (trombones), Antonio Hart (sax alto), Dick Oatts e Ron Blake (saxes tenores), Gary Smulyan (sax barítono).

A orquestra, no entanto, não é ruidosa ou espetaculosa. G.W. é refinado, e sabe dosar riffs exuberantes e toques de romântica nostalgia, com espaço para solos generosos nas peças mais longas. Das 12 faixas de Legacy, sete formam uma minissuíte, intitulada Yes, Chicago is..., escrita pelo mestre para recordar a cidade onde viveu longas temporadas no fim dos anos 30 e na década seguinte. A soma das partes vai pouco além de 14 minutos, e algumas são vinhetas de menos de dois minutos, como as animadas Riffin’ at The Regal (em memória do Regal Theater, que estava para Chicago como o Apollo para Nova York), 47th Street blues e Blowing’ in the Windy City. Yes, Chicago is... começa e termina com duas peças românticas de pouco mais de dois minutos: A Jazz Mecca e A great place to be. Mas A night at The El Grotto (3m40) e Cubs, Bears, Bulls and White Sox (3m10) são momentos efusivos, com muito swing, e solos excelentes, sobretudo de Ron Blake, Anthony Wilson e Gary Smulian.

As outras três composições de G.W. são “variations” sobre “temas” de Stravinsky (3m32) e Puccini (6m20), e sobre o prelúdio Clair de lune (7m30), de Debussy. Na primeira, a referência a uma passagem do Pássaro de fogo aparece logo na introdução, invocada no clarão dos metais, e desenvolvida num vibrante solo de sax tenor. O tema de Nessun dorma (a mais conhecida ária de Turandot) é também apenas sugerido, a partir de “um par de acordes”, como explica o próprio líder. Mas a pungente melodia de Debussy é politonalizada no arranjo de G.W. , de modo “stravinskiano”, depois de uma abertura bem bluesy da pianista Rosnes. Antonio Hart é o solista em destaque desse Clair de lune, que é o ponto culminante do CD.

O filho e o neto de Gerald Winson contribuem para o sucesso de Legacy com as composições Virgo (10m) e September Sky (7m05), respectivamente. A primeira, a mais longa do disco, é uma adaptação da partitura escrita por Anthony para a comemoração dos 90 anos do pai, e interpretada pela Filarmônica de Los Angeles, em 2008, no Hollywood Bowl. A peça parte de um motivo de quatro notas tocado pelo piano, que se repete como um interlúdio entre as intervenções da massa orquestral e os solos de trompete, da guitarra do autor (um minuto a partir dos 4m30) e de Hart (um minuto a partir dos 6m10). A impressionista September sky foi concebida por Eric Otis — que também é guirrista — em 1999. Ele ajudou o seu avô, durante muito tempo, a transcrever para a pauta seus arranjos — “um processo educacional” que, segundo Otis, proporcionou-lhe “um insight único” na metodologia musical de G.W. 



Tags: gerald wilson, jazzman, legacy

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