Jornal do Brasil

Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

Jazz

O “Hammond B3” está de novo em voga

Luiz Orlando Carneiro

Gary Versace é mais conhecido pelos jazzófilos como o acordeonista da orquestra de Maria Schneider, destacado em algumas peças dos álbuns Concert in the garden (2004) e Sky blue (2007), vencedores do Grammy, respectivamente, nas categorias melhor disco de jazz orquestral e melhor composição instrumental (Cerulean skies, de mais de 20 minutos, com solos de Versace e dos saxofonistas Donny McCaslin e Charles Pillow).

Mas nem todos sabem da carreira cada vez mais bem sucedida desse tecladista no comando do Hammond B3 — aquele mini-órgão de dois teclados e uma pedaleira, inventado na década de 30, e “reinventado” por Jimmy The Incredible Smith nos anos 50-60. 

Na eleição dos melhores instrumentistas em atividade, no ano passado, os 84 críticos reunidos pela Downbeat colocaram-no em sétimo lugar entre os organistas, atrás do Dr. Lonnie Smith, de Joey DeFrancesco, Larry Goldings, John Medeski, Sam Yahel e Wayne Horvitz. No pleito deste ano (80 votantes), Versace chegou em terceiro, bem mais perto dos imbatíveis Smith e DeFrancesco.

O organista Gary Versace é destaque nos clubes de Nova York
O organista Gary Versace é destaque nos clubes de Nova York

Na última semana de julho, tive a oportunidade de ouvi-lo no Cornelia Street Café, Nova York, integrando o trio do guitarrista Ben Monder (Ted Poor na bateria), num set empolgante, no qual equilibrou momentos incandescentes à la Jimmy Smith — acordes bem funky, a pedaleira usada como se fora pista de um ágil tap dancer — com especulações melódico-harmônicas de índole modal lembrando Larry Young (1940-78), aquele que chegou a ser chamado de “o Coltrane do órgão”.

Gary Versace voltou ao mesmo clube de jazz do Village, há uma semana, como integrante do Trio New York (Ellery Eskelin, sax tenor; Gerald Cleaver, bateria), para divulgar o CD do novo grupo, recém-lançado pelo selo Prime Source. O organ trio do vanguardista Eskelin representa, segundo o saxofonista, “uma integração conceitual da livre improvisação com material tradicional”.

Ele acrescenta que “Gary e Gerald têm ouvidos para o inteiro fluir da história do jazz até o momento, e na direção do futuro”. Os temas escolhidos para a improvisação interativa do Trio New York são Off minor, de Thelonious Monk, e quatro conhecidos standards: Memories of you (Cy Coleman), Lover, come back to me (Sigmund Romberg), Witchcraft (Cy Coleman) e How deep is the ocean (Irving Berlin).

Há três anos, Versace começou a escalada ao topo do ranking dos organistas a partir de sua atuação em dois álbuns: Outside in (Criss Cross) e The Nuttree Quartet/Standards (Kind of Blue). No primeiro, ao lado de Donny McCaslin, Adam Rogers (baixo) e Clarence Penn (bateria). No segundo, na companhia dos veteranos John Abercrombie (guitarra), Jerry Bergonzi (sax tenor) e Adam Nussbaum (bateria), interpretando gemas do repertório jazzístico do quilate de Come Sunday (Ellington), Footprints (Wayne Shorter), Eronel (Monk), Israel (John Carisi) e Naima (Coltrane).

A propósito, o Hammond B3 está mesmo na moda. O atual quarteto do grande guitarrista Pat Martino — com o organista Lucas Brown no órgão — foi a principal atração do Jazz Standard, Nova York, em julho. No mesmo clube, semana passada, Dr. Lonnie Smith estava apresentando o seu noneto, que soa como uma big band. O saxofonista James Carter viajou pela Europa com o seu organ trio (Gerard Gibbs, B3; Leonard King, bateria).

O veteraníssimo (84 anos) sax alto Lou Donaldson foi atração no Birdland, também em julho, à frente de um quarteto com a japonesinha Akiko Tsuruga no B3. O vanguardista Oliver Lake — outro saxofonista encantado com os efeitos sonoros e o calor rítmico do Hammond — inicia um giro pela Califórnia, aproveitando o sucesso do CD Pass (Passin’ Thru), com o organista Jared Gold, Freddie Hendrix (trompete) e Jonathan Blake (bateria).

Tags: b3, hammond

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