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Paul Motian: Ao vivo, ativo e criativo, sempre no Village Vanguard

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Lá se vão 50 anos, o pianista Bill Evans gravou ao vivo, no Village Vanguard, as históricas e ainda hoje up to date faixas do seu trio interativo com o baixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian. Evans morreu bem antes do que devia, aos 51 anos. LaFaro perdeu a vida, aos 25 anos, num desastre de automóvel, menos de um mês depois das sessões em que os três registraram as imortais Waltz for Debby e Gloria’s step.

Motian — octogenário desde março — está mais vivo do que nunca, e no auge do seu processo criativo, como instrumentista, compositor e líder. Na eleição anual dos críticos promovida pela Downbeat (resultados publicados na edição deste mês), ele foi o primeiro na categoria dos drummers, derrotando Jack DeJohnette, Brian Blade, Matt Wilson e o venerável Roy Haynes — este também ainda na ativa, aos 86 anos, no comando da sua Fountain of Youth Band.

Aos 80 anos, mestre da percussão lidera novo septeto

Na última semana deste calorento julho novaiorquino, tive a felicidade de desfrutar, na catedral-mor do jazz, de mais um ofício celebrado pelo inclassificável misantropo, que se recusa a deixar os limites de Manhattan-Brooklyn, e considera o Vanguard a sua casa-estúdio. Como escreveu Ken Micallef — que o entrevistou para a DB — “a montanha deve vir a ele” e, de preferência, no lendário clube-porão da Seventh Avenue South, altura da Rua 11.

Desta vez, de terça-feira a domingo, em dois sets por noite, Paul Motian apresentou um novo septeto, criado a partir da Electric Bebop Band – um sexteto de sonoridade bem original, formado por dois saxes (Chris Cheek e Tony Malaby), duas guitarras (Steve Cardenas e Jakob Bro) e um baixo. Essa banda tocou no Chivas Jazz Festival (Rio e São Paulo), em 2003, e logo se transformou no septeto Paul Motian Band, com a adição de um terceiro guitarrista ( Ben Monder).

Foi com tal escalação que Motian e seus associados gravaram o primoroso CD Garden of Eden (ECM), lançado em 2006, e quinto colocado na lista dos Top Cds daquele ano da revista Jazz Times. Vale lembrar que os dois álbuns mais votados naquele pleito foram Sound Grammar, do quarteto de Ornette Coleman (ganhador também do Prêmio Pulitzer de Música) e Time lines (Blue Note), do quinteto de Andrew Hill (1931-2007).

Na atual banda de Motian permanecem Cheek (saxes tenor e barítono) e Steve Cardenas; Malaby foi substituído pelo rising star Bill McHenry, também no sax tenor; o baixista agora é o jovem Thomas Morgan. Mas as outras duas guitarras foram suprimidas em favor de dois músicos de grande reputação nos rincões vanguardistas do Brooklyn e da Downtown: o pianista Jacob Sacks, brilhante desbravador de trilhas politonais, adepto de imprevisíveis clusters à la Don Pullen; Mat Maneri, músico especulativo que se especializou na viola (a irmã mais gorda do violino).

As peças escritas por Motian e seus arranjos de composições de Charles Mingus (Good bye, pork pie hat) ou de Thelonious Monk (Blue Monk) variam em moods, mais ou menos camerísticos, com nuvens sonoras sombrias subitamente iluminadas por clarões providos pelos címbalos mágicos do líder. Os saxofones atuam na linha de frente do conjunto, juntamente com a bateria do compositor-arranjador-regente. O piano vem logo em segundo plano, no apertado palco do Vanguard. Guitarra, viola e baixo criam uma textura melódico-harmônica de fundo, mas são volta e meia despertados pelo “maestro”, que incentiva momentos de livre improvisação coletiva. Solos mais longos de Cardenas e diálogos entre a viola de Maneri e um dos saxes são liberados, de repente, pelo dono do time, que gosta de surpreender os próprios comandados.

A julgar pelo set de mais de uma hora a que assisti, em noite de casa cheia, o septeto renovado do gênio da arte percussiva é ainda mais impactante e free do que o conjunto que gravou o recente CD Trio 2000 + Two/ Live at the Village Vanguard (Winter & Winter), com Maneri, Masabumi Kikuchi (piano), Chris Potter (sax tenor) e Larry Grénadier (baixo).

O incansável Motian, sempre in motion (o trocadilho é dele), retorna ao Vanguard no dia 30 de setembro, para um gig de cinco noites, com um New Trio, para o qual convocou Jerome Sabbagh (saxes tenor e soprano) e Ben Monder (guitarra).



Tags: baterista, paul motian, village vanguard

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