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O jazz de câmera de Storms/Nocturnes

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Tim Garland, inglês, 44 anos, é saxofonista, arranjador e compositor, com um currículo que inclui as partituras da parte orquestral dos duetos Chick Corea-Gary Burton, primeiro volume de The new Crystal Silence, o CD duplo da Concord que faturou o Grammy 2009 de melhor álbum de jazz instrumental.

O californiano Joe Locke, 52, radicado em Nova York, divide o atual pódio dos campeões do vibrafone com o veterano Gary Burton e o bem mais moço Stefon Harris. 

O esplêndido pianista Geoff Keezer não tinha ainda 18 anos quando Art Blakey (1919-1990) o incluiu na derradeira formação de seus Jazz Messengers — aquela que gravou o disco One for all (A&M), com os então também emergentes Brian Lynch (trompete) e Javon Jackson (sax tenor).

Trio Garland-Locke-Keezer cria peças quase clássicas em improvisação livre

Garland, Locke e Keezer formaram, há 10 anos, um trio de jazz de câmera chamado Storms/Nocturnes, que reaparece no recém-lançado CD Via, selo Origin, gravado em novembro do ano passado. 

São, ao todo, 10 faixas desenvolvidas de modo cooperativo-interativo, a partir de composições assim divididas: Tiger Lily’s DIY paradise (5m35), Daly Avenue (4m17), Infinite blue (4m05) e A wavy thing (3m30), do pianista; Ripertoli (8m15), Lake of weathers (10m) e Ambleside nights (6m15), do saxofonista; Her sanctuary (8m30), Snowfall in Central Park (5m25) e Miramar (8m), do vibrafonista.

Apesar do nome do trio, o ambiente da música é, em geral, mais “noturno” e impressionista do que “tormentoso” e expressionista. Mas há momentos de grande vivacidade e intrincada trama melódico-hamônica, às vezes contrapontística, como em Ripertoli (Garland no clarinete baixo e no sax soprano), em Ambleside nights (melodia envolvente em tempo vivo, com solos incisivos de Garland, no sax tenor, e de Keezer) e em Miramar (vibrafone e piano divagam e se entrelaçam em ritmo meio sambado, com Garland de volta no tenor, em intervenção empolgante). A peça mais free é a breve Wavy thing, sonicamente excêntrica, politonal e polirrítmica.

Na maioria das faixas, o saxofonista dá preferência ao som langoroso do soprano, apropriado para melodias mais contemplativas como as de Paradise, Her sanctuary, Lake, Snowfall e Infinite blue. Mas o sax soprano é também muito adequado para o molejo bluesy de Daly Avenue, esquentado pelo fraseado bop do vibrafone de Locke, à la mestre Milt Jackson (1923-1999).

Geoff Keezer assim sintetizou —com a mesma clareza de seu dedilhado — a concepção desse primoroso trio de jazz camerístico: “Storms/Nocturnes é cheio de paradoxos, e sua expressão criativa nasce no espaço existente entre opostos aparentes: improvisação livre versus peças quase clássicas, totalmente compostas; o tão falado e exagerado abismo entre jazz americano e europeu; entre a beleza flutuante do rubato e do blues bem marcado; e até nas diferenças filosóficas de seus músicos”.



Tags: garland, keezer, locke, nocturnes, storms

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