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Gary Burton reaparece com o seu ‘new quartet’

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Quando Gary Burton surgiu na década de 60, oriundo do Berklee College de Boston, surpreendeu quem achava que Lionel Hampton e Milt Jackson já tinham explorado todos os recursos musicais possíveis do vibrafone. Ele introduziu a técnica de tirar “acordes” das barras do instrumento, com o emprego de quatro — e não apenas dois — marteletes (malets), criando ambientes sonoros mais ricos e envolventes.

Músico sofisticado e mestre do Berklee há muitos anos, Burton tem uma respeitável discografia, na qual são referenciais os seus duos com o pianista Chick Corea gravados pela Concord (Native sense, 1996; The new crystal silence, 2007, Grammy de álbum instrumental). E também os discos em quarteto ou em quinteto, ao lado do mesmo Corea e outros jazzmen do quilate de Pat Metheny (guitarra), Roy Haynes (bateria) e Dave Holland (baixo), como o memorável Like minds (Concord, 1997).

Mas o vibrafonista nunca deixou de trocar ideias com gente bem mais moça do que ele. Sobretudo em se tratando do ex-garoto prodígio Julian Lage, que Burton convocou para duas sessões da Concord quando o virtuose da guitarra tinha menos de 16 anos (Generations, 2003, com o pianista Makoto Ozone; Next generation, 2004, com o pianista russo Vadim Neselovski).

‘Common ground’ é o primeiro CD gravado em estúdio pelo mestre do vibrafone desde 2005

O recente CD The new Gary Burton quartet/Common ground — o primeiro gravado em estúdio pelo mestre do vibes desde 2005, e sua estreia na etiqueta Mack Avenue — tem de novo na linha de frente o fascinante guitarrista, hoje no mesmo nível técnico de um John Scofield, apoiado pelos não menos extraordinários Antonio Sanchez (bateria) e Scott Colley (baixo).

O álbum reúne 10 faixas de duração média de seis minutos — entre os 5m17 de Did you get it?, de Sanchez, e os 7m16 de uma versão primorosa de My funny Valentine. A faixa-título, Common ground (6m58), também assinada e iluminada pelo baterista, é o ponto culminante da coleção, a partir de uma exposição contrapontística de Lage e Burton, que solam nesta ordem. Apesar de ausente do grupo, o pianista Neselovski colabora com duas peças cujo mood romântico é realçado pelas cordas de Lage — Late night sunrise (6m38) e Last snow (7m). Lage escreveu a erudita Etude (5m50) e Bansky (6m13), esta ritmicamente excêntrica, inspirada nos traços do grafiteiro inglês do mesmo nome.

A única composição de Burton no CD é a balada What is so long ago?. E ele explica: “Não sou de escrever temas constantemente. Mas sentei-me ao piano, e surgiu um tango que dediquei a Astor Piazzolla, com quem colaborei nos anos 80. E eu sabia como Julian toca um tango, desde quando ele estava na minha banda Generations, em 2004”. O novo arranjo de My funny Valentine foi feito por Burton também tendo em mente o guitarrista, que se estende no solo inicial.

O álbum Common ground — fundamentalmente baseado no som muito especial da combinação vibrafone-guitarra — tem como fecho uma interpretação de In your quiet place, peça que o pianista Keth Jarrett escreveu para Burton, e que ambos tocaram no LP Gary Burton-Keith Jarrett Quintet, gravado em 1970.



Tags: berklee, common ground, gary burton, new quartet

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