Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Jazz

Luiz Orlando Carneiro: Conspiração de expoentes do jazz

Luiz Orlando Carneiro

Há quase um ano, falei de Lee Konitz nesta coluna para recomendar o álbum New quartet live at the Village Vanguard (Enja), gravado pelo primoroso e incansável saxofonista – hoje com 83 anos – na companhia de músicos bem mais jovens, “a fim de reciclar sua arte de improvisador cada vez mais livre das barras de compasso e da tonalidade convencional”. Naquele registro, seus acólitos eram os integrantes do Trio Minsarah (Prisma, em hebraico), à frente o pianista Florian Weber.

Mas o saxofonista alto não deixa de buscar, de quando em vez, a acolhida de jazzmen igualmente consagrados, com os quais pode “conspirar” num clima relaxado, sem qualquer sombra de temor reverencial. E reaparece em grande estilo (até na capa da edição deste mês da Jazz Times) em dois CDs que acabam de sair do forno: Live at Birdland (ECM) e KnowingLee (Outnote).

O registro no Birdland é de dezembro de 2009, quando marcaram encontro com Lee, no clube de Nova York, suas excelências Paul Motian (bateria), Charlie Haden (baixo) e Brad Mehldau (piano). O grupo – idade média de 69 anos, sendo Mehldau, 40, o benjamim – interpreta quatro standards do Great American Songbook e três cultuados temas da segunda fase do bebop: Lover man (11m55); I fall in love too easily (10m17); You stepped out of a dream (11m47); Lullaby of Birdland (10m15), de George Shearing; Oleo (15m20), de Sonny Rollins; Solar (11m40), de Miles Davis.

Pela longa duração das faixas selecionadas pode-se logo imaginar com que abandono, criatividade e espírito de partilha esses quatro expoentes do jazz confabularam em torno de composições a partir das quais improvisaram milhares de vezes ao longo de suas carreiras, como se as tivessem descobrindo naquele momento.

Com relação ao “aqui e agora”, o mesmo pode ser dito do CD KnowingLee, gravado em maio do ano passado, no qual Konitz tem a seu lado os também magistrais Dave Liebman (saxes tenor e soprano) e Richie Beirach (piano), num grupo de formato bem original, e de idade média igualmente elevada (70 anos). Beirach comenta nas notas escritas para o disco: “A instrumentação de dois sopros mais um piano podia ter sido problemática. Deveria eu ser o baixo e a bateria, ou apenas um tapete? Certamente, nem uma coisa nem outra. O que fez tudo funcionar bem foi o simples fato de que não se tratava apenas de dois instrumentos, mas de Lieb e Lee...a mágica estava ali, e acontecendo!!!”. 

Além da faixa-título KnowingLee (5m), assinada por Liebman-Beirach, há quatro “originais” bolados pela trinca ou por dois deles: Don’t tell me what key (5m40), Universal lament (6m25), Migration (4m23) e Trinity (2m). Como não podia deixar de ser, em se tratando de um álbum de Konitz, a reinvenção melódico-harmônica de standards se faz presente, a partir da lapidação direta ou indireta das “gemas”. No primeiro caso, estão Body and soul (6m), Alone together (8m15), What is this thing called love (7m05) e duas peças do cânon jazzístico: In your own sweet way (8m35), de Dave Brubeck, e, novamente, Solar (10m). No segundo, as paráfrases konitzianas de Pennies from heaven e All the things you are, que são, respectivamente, a antológica Hi Beck (3m55) e Thingin (7m50). 

Tags: enja, jazz, luiz orlando carneiro

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