Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Jandira Feghali

Para Rose

Jandira Feghali *

Uma felicidade do destino fez meu caminho cruzar com o de Rose Marie Muraro. Eu na luta pela saúde, ela incansável feminista. Nosso encontro ampliou meus horizontes e abracei o mundo do feminismo com o entendimento de que a luta pela igualdade de gênero se dava em muitos fronts e se alimentou, por muito tempo, da força e da formulação de Rose.

A morte da patrona do feminismo brasileiro nos deixou a todos um pouco órfãos. Sua herança vai além da enorme contribuição à causa feminista, onde atuou com determinação e coerência. Suas ideias, sua espiritualidade, sua análise da realidade e seu potencial em transformá-la, seus mais de 40 livros, seus filhos e netos, sua luta pelos direitos das mulheres, são constante lembrança das muitas mulheres que foi Rose Marie. Todas possíveis.

Irreverente, bem-humorada, apaixonada e sempre disposta a enfrentar uma boa polêmica, características que suplantavam as dificuldades que, desde cedo, enfrentou, com problemas de visão e, mais tarde, na luta contra o câncer. Teorizou até o fim. Enquanto teve forças manteve acesa a chama da luta social.

Como explicar que, numa só pessoa, coubessem tantas Roses, uma mais questionadora e sensível que a outra? Como entender o que a movia e como, a cada momento difícil, ela se superava e, com uma gargalhada efusiva, desafiava o inesperado?

Essa a grande lição que nos deixa. Muitos motivos ela possuía para se voltar para si mesma, seus problemas e suas angústias. Quantos mais apareciam, mais ela se doava à luta coletiva. Afirmava que quando abandonássemos a crença de sermos deus, passaríamos a enxergar o deus dentro de nós. O “eu” dando espaço, finalmente, para nosso potencial transformador da realidade de todos. 

Seu legado é concreto, mas também espiritual. Nossa obrigação é levá-lo adiante, para que as gerações que não tiveram a felicidade de com ela conviver, se beneficiem de sua energia e inspiração.

... “Com teu bico colocaste na minha mão esquerda / A semente da morte / E na direita a semente da vida / Para que com as duas juntas / Eu fizesse a escolha de cada momento, / Ligando o instante à sua profundidade eterna.” (Pássaro de Fogo – Rose Marie Muraro)

* Médica e líder da bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados

Tags: Artigo, coluna, JB, marie, muraro, rose

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