Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Internacional

Depois de vitória contundente no México, Obrador é procurado por Trump e Trudeau

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER*, johanns.eller@jb.com.br

CIDADE DO MÉXICO - Uma nova era começa nos Estados Unidos Mexicanos. Primeiro presidente eleito de esquerda na história do país, Andrés Manuel López Obrador consolidou uma vitória esmagadora sobre as legendas opositoras e seu partido, o Movimento da Regeneração da Nação (Morena), será a maior força política do Congresso e terá o controle da maior parte dos estados do país, elementos que o credenciam para um governo forte. O político de 64 anos já iniciou conversas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.  

Na sua terceira disputa presidencial consecutiva, Obrador saiu vitorioso com uma margem histórica. Depois de 79% das urnas apuradas, o mexicano superou os 23 milhões de votos, marca nunca antes atingida por um candidato durante o período democrático no México. Dezenas de milhares de apoiadores se reuniram na principal praça da capital, a Zocalo, para acompanhar o discurso do futuro presidente. “Sou muito consciente da minha responsabilidade histórica!”, bradou AMLO, como é conhecido no país. 

Obrador é ovacionado por eleitores na praça Zocalo, na Cidade do México, depois da oposição reconhecer sua vitória expressiva nas

Um dos principais desafios para o governo de Obrador será externo: a relação com a Casa Branca. Logo depois da divulgação das pesquisas de boca de urna, o presidente dos EUA, Donald Trump, felicitou Obrador pelo Twitter e disse estar “ansioso” para trabalhar junto do presidente eleito. Horas mais tarde, na mesma rede social, o mexicano disse ter conversado com o dirigente americano por meia hora. Na ligação, AMLO propôs que o país vizinho invista em projetos de desenvolvimento que gerem empregos mexicanos, o que impactaria no fluxo de imigrantes ilegais e na segurança.  

 Além da retórica anti-imigração inflamada do presidente americano, as relações comerciais entre as duas nações são um ponto fundamental para Obrador, que assume o poder em 1º de dezembro em meio à alta da inflação e uma forte dependência do vizinho - 80% das exportações mexicanas têm os EUA como destino. Trump quer substituir o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), o qual considera “desastroso”, por acordos bilaterais, mas Obrador e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, prometem se opor às intenções do americano. Em um telefonema feito ontem, o mexicano e o canadense defenderam a atualização do acordo e a manutenção do formato trilateral do Nafta.  

O coordenador da pós-graduação de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Thiago Rodrigues, acredita que nem sempre as relações serão de tensão. “No campo da retórica, devemos esperar uma elevação do tom. No plano prático, há uma dependência muito grande dos dois lados. Existe uma pressão de grandes empresas da economia globalizada pela normalização da relação entre as duas nações”, diz Rodrigues, que cita o número expressivo de indústrias instaladas no México com produção voltada para os americanos. 

Antes da conclusão da apuração das urnas, a coligação de Obrador, formada pelo Morena e os partidos do Trabalho (PT) e do Encontro Social (PES), já havia conquistado 210 cadeiras da Câmara dos Deputados e 53 vagas do Senado. 

* Com supervisão de Denis Kuck



Tags: diálogo, méxico, obrador, presidência, trump

Compartilhe: