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Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Internacional

Websérie dá cara e voz às mulheres no Marrocos

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Com o rosto descoberto, falam de estupro, homossexualidade, de assédio, restrições de roupas e proibições sociais. Em "Marokkiat", uma websérie feita em Casablanca, as marroquinas fazem uso da palavra e quebram os tabus.

No primeiro episódio, Zahra, uma vendedora ambulante de cerca de 40 anos, declara com uma gargalhada que "não há amor com o marroquino" e que "no Marrocos, o amor é negócio". Desde então, em alguns meses, a série difundida através da página de Facebook "Jawjab" tem mais de seis milhões de visualizações e 2,5 milhões de interações.

"Tinha vontade de mostrar mulheres na rua, nesta rua hostil e selvagem que não lhes pertence, para que possam dizer 'estou aqui, existo', que se apropriem deste espaço", explica Sonia Terrab, de 33 anos, roteirista e diretora de Marokkiat ("Marroquinas" no dialeto árabe local).

Em sua minissérie de 12 vídeos, 12 mulheres de todas as idades, "simples", "normais", filmadas em pé na rua, compartilham em 60 segundos o que viveram.

A série "faz o retrato de uma sociedade, de uma feminilidade à marroquina", explica Sonia Terrab.

- 'Como uma coisa' -

Os dados são eloquentes: mais de um em cada dois marroquinos reconhecem tem assediado sexualmente uma mulher no espaço público e mais de 60% das mulheres declaram ter sido vítimas deste tipo de agressão, segundo um estudo recente publicado pela ONG Mulheres Magreb.

Sintomaticamente, há mais mulheres do que homens que consideram que a aparência da vítima provoca o assédio, segundo este estudo.

"Entendi que vivo em uma sociedade na qual esteja nua, vestida, em burca ou inclusive escondida debaixo de um lençol, o homem sempre te olhará como uma coisa", diz Jadiya, de 21 anos, em um dos episódios de "Marokkiat", contando o que vive desde que usa véu.

"A menina deve seguir normas e se vestir segundo o princípio dos homens para não tentá-los: qualquer coisa!", se indigna Nada em outro vídeo. "Como meninas, somos meio seres e isso me incomoda".

Salima, de 25 anos, chefe de equipe em um grupo de comércio eletrônico, escolheu falar das agressões verbais provocadas por sua tatuagem, "percebida na rua como um grande ato de rebelião".

"Tinha vontade de compartilhar minha experiência diária", explica à AFP esta mulher que rejeita os termos "ativista" e "feminista" porque não gosta de "rótulos".

Seu depoimento foi visto 340.000 vezes e o que mais lhe surpreendeu "foi ler comentários positivos". A experiência lhe deu força e coragem: "Antes dizia para mim mesma, 'bom, não posso mudar as coisas', afirma.

- 'Crença popular' -

"Quando se expressam sem filtro na internet, as jovens têm retornos em geral muito violentos", ressalta Fatim Bencherki, de 33 anos, diretora da empresa Jawjab, que produz "Marokkiat".

Subsidiária de uma companhia de produção local, Jawjab apoia os jovens criadores de conteúdos web proporcionando a eles meios de produção. Sua página de Facebook difunde os programas, alimenta o debate e atrai pedidos para sua produção digital, o que permite equilibrar os gastos.

Com Marokkiat, "tivemos uma avalanche de respostas, mensagens de apoio, mensagens de amor, depoimentos: muitas meninas se apresentaram espontaneamente para falar, liberar sua energia, falar de sua vida simplesmente", explica a responsável de Jawjab.

"Rompe com as crenças populares", considera, lembrando que "o Marrocos é um país aparentemente aberto em que a autocensura é um tema real".

Porque as redes sociais mudam a situação. "Vimos isso com o fenômeno #MeToo no mundo todo, está se falando da terceira revolução femininista", aponta Sonia Terrab.

A diretora está convencida de que "a palavra está se libertando no Marrocos: entre as mulheres jovens há um verdadeiro desejo de emancipação, falar na rua e no espaço virtual lhes incomoda cada vez menos".

Agência AFP


Tags: cinema, cultura, mulheres, redes, serie, tv

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