Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Internacional

Por que o terremoto de Ischia causou tanta destruição

Conjunção entre casas frágeis e sismo "raso" potencializou danos

Agência ANSA

Desde o terremoto de 4.0 na escala Richter que matou duas pessoas na ilha de Ischia, no sul da Itália, muitas pessoas no país se perguntam como um tremor de magnitude tão baixa pode ter provocado tamanha destruição.

O sismo ocorreu à 20h57, a cinco quilômetros de profundidade e com epicentro no golfo de Nápoles, atingindo sobretudo a cidade de Casamicciola Terme, na parte setentrional da ilha e onde foram registradas as duas únicas vítimas - ambas mulheres.

Além disso, dezenas de construções desabaram em Casamicciola e na vizinha Lacco Ameno, deixando um rastro de escombros nos dois municípios que seria incompatível com a magnitude do terremoto.

Um dos fatores para a extensão dos danos provocados pelo sismo foi sua baixa profundidade (o de Amatrice, por exemplo, teve seu epicentro 10 quilômetros abaixo do solo), o que é uma característica típica de tremores em áreas vulcânicas.

Ischia fica na região metropolitana de Nápoles - cidade tomada pela imagem do vulcão Vesúvio, que tem pelo menos seis bocas sepultadas no fundo do mar - e em uma zona de intensa atividade vulcânica. "Foi um terremoto extensional, no qual houve uma dilatação da crosta terrestre, e que se desenvolveu paralelamente à costa", explica Carlo Doglioni, presidente do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV).

Ele não pode ser considerado um sismo tectônico, como aqueles do centro da Itália, nem vulcânico, já que não teve sua origem em uma erupção, mas a localização da ilha foi determinante para que houvesse tanta destruição.

"Em uma área vulcânica, como a de Ischia, a crosta dissipa muito calor, e quanto mais quente ela fica, mais a sismicidade se concentra nas zonas mais frias e externas. Por isso, os terremotos em áreas vulcânicas são muito superficiais e potencialmente destrutivos, quando as construções são vulneráveis", acrescentou Doglioni.

Essa última ressalva levanta outra explicação para os danos em Casamicciola e Lacco Ameno: a fragilidade dos imóveis seculares que são tão comuns nas cidades italianas, como já ficara evidenciado na devastação causada em Amatrice pelo terremoto de 24 de agosto.

"O que pude ver hoje é que muitas construções foram feitas com materiais de baixa qualidade, que não correspondem às normativas vigentes. Por isso alguns imóveis desabaram ou foram danificados", afirmou o chefe do Departamento de Proteção Civil da Itália, Angelo Borrelli, durante uma coletiva de imprensa em Casamicciola.

A Procuradoria da República em Nápoles já abriu um inquérito para investigar se as mortes do sismo em Ischia podiam ter sido evitadas. Como boa parte do país, a ilha também possui um passado trágico ligado a tremores de terra: em 28 de julho de 1883, um terremoto matou 2,3 mil pessoas e devastou Casamicciola, que, assim como na última segunda-feira (21), estava repleta de turistas aproveitando o verão europeu.

"A falha ativada em 21 de agosto é a mesma daquela época [1883], e as casas, vulneráveis, foram construídas em um terreno que, por causa de sua estrutura geológica, amplifica as ondas sísmicas", afirma o presidente do INGV. Quando o solo não é consolidado - como os arenosos, por exemplo -, as ondas sísmicas ficam mais lentas e, deste modo, a amplitude aumenta, provocando danos.

"O cone de irradiação das ondas se concentrou em uma área restrita. Foi como ter uma bola de canhão que explode debaixo da cama", acrescentou Doglioni.

Tags: agencia, ansa, europa, internacional, italia

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