Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Internacional

Episódio com supremacistas brancos nos EUA levanta debate sobre a força dos símbolos

Estátuas e monumentos materializam passado que extremistas querem resgatar

Jornal do BrasilRebeca Letieri

O desfile de ódio a negros, imigrantes, homossexuais e judeus na cidade de Charlottesville, no Estado americano de Virgínia, sexta-feira (12) passada, causou perplexidade e levantou debates a respeito da ascensão da extrema direita em diversos países. A motivação desses homens carregando tochas e fazendo saudações nazistas partiu da decisão de retirar uma estátua do general confederado Robert E. Lee de um parque municipal da cidade de pouco mais de 50 mil habitantes. Neste contexto de ascensão de extremistas, símbolos como estátuas e monumentos ganham um protagonismo até então pouco debatido. Especialistas alertam para a força desses símbolos na construção da memória e formação de opinião pública. 

"Existe uma disputa pelo espaço público. O nome que ele tem é algo que legitima manifestações como essas", disse o professor de política internacional da Universidade Veiga de Almeida, Tanguy Baghdadi.

A fundadora do grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, se diz contra todo e qualquer tipo de censura. Mas faz uma ressalva para casos simbólicos como estátuas: 

"Isso não quer dizer que a gente vai exaltar figuras da repressão, do terror, e da morte. Faz parte da história, mas não precisa ser exaltado. Exaltados precisam ser os movimentos que nunca aparecem na história oficial", disse. 

Durante a Guerra Civil do país (1861-1865), os chamados Estados Confederados, do sul americano, buscaram manter o velho modelo da monocultura do tabaco, voltada para a exportação e explorava a mão de obra escrava. Com a abolição da escravatura, o modelo sulista seria destruído -- o que acabou acontecendo. A guerra se deu pela disputa de poder entre dois modelos econômicos. Atualmente, diversas cidades americanas vêm retirando homenagens a militares confederados, gerando polêmica entre os que são a favor e contra a medida. 

"Dizem que são símbolos culturais, só que não dá para ignorar a história que esse símbolo carrega. Essa disputa no sul dos EUA é antiga. É uma parte que você quer esquecer", disse Tanguy, lembrando que essas manifestações racistas acontecem de forma recorrente no país. “É um traço histórico da região. O que existe hoje é certo encorajamento, no sentindo de que esses grupos acham possível dizer o que pensam sem consequências”, completou. 

Os participantes do protesto gritavam palavras de ordem como: "Vocês não vão nos substituir", em referência a imigrantes; "Vidas brancas importam", em contraposição ao movimento negro Black Lives Matter; e "Morte aos Antifas", abreviação de "antifascistas". As tochas carregadas por eles são uma marca da Ku Klux Klan, grupo fundado pouco depois da guerra por ex-soldados confederados. A KKK promoveu durante anos a violência contra populações negras do sul do país. 

Motorista avança e atropela em protesto na Virgínia
Motorista avança e atropela em protesto na Virgínia

A marcha entrou em confronto com um grupo que fazia oposição aos supremacistas, deixando três mortos e feridos. A polícia interveio, enquanto ambulâncias se deslocavam ao local. O governador do estado norte-americano da Virginia, Terry McAuliffe, chegou a decretar estado de emergência. 

“Agora ficou muito mais ostensivo. Chegou num ponto crítico. Não tinha como se abster, a oposição é necessária. É uma manifestação que tem que ter certa dose de confronto, porque é assim que você faz com que a imprensa e as pessoas prestem atenção”, completou Taguy.

Trump

Críticas à imprensa também eram constantes durante o protesto e faziam coro com o slogan do presidente Donald Trump: "Não temos medo de 'fake news', seus mentirosos". Richard Spencer, líder da ultradireita que chegou a fazer uma saudação nazista ao comemorar a vitória do magnata em novembro, estava no protesto em Charlottesville, junto com David Duke, figura proeminente da KKK. Em entrevista no sábado (12), Duke afirmou que o grupo vai "cumprir as promessas de Donald Trump [na campanha eleitoral] e tomar nosso país de volta".

Dois dias depois do confronto e após ser alvo de várias críticas por "culpar os dois lados", Donald Trump escreveu no Twitter: "Todos nós devemos estar unidos e condenar tudo o que representa o ódio. Não há lugar para esse tipo de violência na América. Vamos juntos como um!".

“Trump é uma expressão desse ódio. Assim como na França, a ascensão de Marine Le Pen também é. Embora seja difícil dizer se Trump é uma causa, ou se ele é consequência. Até porque ele foi eleito com esse discurso, e depois que isso acontece, ele dá força para esse movimento”, disse Tanguy, acrescentando: “Ele se manifestou do ponto de vista político, porque a repercussão seria ruim para ele. É importante que ele seja forçado a falar. É importante que ele seja obrigado a se manifestar. Isso contribui para entender que o racismo está do lado errado”. 

Trump publicou no Twitter: "Todos nós devemos estar unidos e condenar tudo o que representa o ódio. Não há lugar para esse tipo de violência na América. Vamos juntos como um!"
Trump publicou no Twitter: "Todos nós devemos estar unidos e condenar tudo o que representa o ódio. Não há lugar para esse tipo de violência na América. Vamos juntos como um!"

Alemanha

No dia seguinte do protesto em Charlottesville, um turista norte-americano alcoolizado fez uma saudação nazista na cidade de Dresden, na Alemanha. Após ser agredido por um morador local, a polícia alemã informou que o americano passou a ficar sob investigação por violar as leis da Alemanha. O país proíbe qualquer tipo de apologia ao nazismo, seja por meio de exibição de símbolos ou gestos.

"Na Alemanha, como houve um choque muito grande com o nazismo, eles fizeram isso de forma rápida. Não houve transição, houve ruptura. Na transição, símbolos são tolerados, e quando são tolerados, com o passar do tempo tornam-se confortáveis às pessoas, ou vão servir como forma de legitimar opiniões semelhantes. A partir daí, aquele símbolo não é mais visto como passado. É visto como algo que você tem a possibilidade de enaltecer no presente", explicou o professor de política internacional Tanguy.

Brasil 

No Brasil, agentes do regime militar (1964-1985) estão nas placas de ruas, praças e até cidades. As comissões de direitos humanos do país se mobilizam há anos na reconstituição dos anos de chumbo, se empenhando em renomear esses espaços. Até a Ponte Rio-Niterói ainda carrega o nome Presidente Costa e Silva. Atualmente, tramita um projeto de lei na Câmara dos Deputados, de autoria do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), que altera o nome para ‘Ponte Herbert de Souza – Betinho’, sociólogo perseguido e exilado pela ditadura. 

"É simbólico que, no Brasil, o palácio [do militar] Duque de Caxias [1803-1880] fique ao lado da Central. Assim como a ponte Costa e Silva que serve para ligar dois espaços importantes. Acontece que no Brasil também não houve ruptura, e a transição foi lenta", comentou Tanguy.

Para Cecília Coimbra, essas figuras representam os grupos dominantes do estado em determinado momento. “Essa memória vai ser sempre glorificada”, acrescentou, concluindo: “A memória dos ditos vencidos é criminalizada. Foi o que aconteceu com a estátua do Lamarca no interior de São Paulo. Você pode até discordar do posicionamento político dele, mas isso não tira o fato dele ter sido uma pessoa que largou a família e dedicou a vida para lutar por um país mais digno. A maioria dessas figuras é invisibilizada”.

Recentemente, o secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles, que também é um dos fundadores do Movimento Endireita Brasil, determinou a retirada do busto do guerrilheiro Carlos Lamarca (1937-1971) do Parque Estadual do Rio Turvo, inaugurado em 2008 em Cajati, município do Vale do Ribeira, a 240 km da capital paulista.

Pedestal onde estava o busto de Lamarca
Pedestal onde estava o busto de Lamarca

Por meio de sua assessoria, o secretário justificou a atitude dizendo que "narrar fatos é uma coisa. Erguer bustos com dinheiro público e em parque público é bem diferente. Carlos Lamarca foi um guerrilheiro, desertor e responsável pela morte de inúmeras pessoas. A presença desse busto no local é inadmissível".

Ex-capitão do Exército Brasileiro, Lamarca liderou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização de luta armada que combateu a ditadura civil-militar. Comandou assaltos a bancos e o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher no Rio, em 1970, em troca da libertação de 70 presos políticos. Ele foi condenado pelo Superior Tribunal Militar como desertor e morto em uma operação por militares no interior da Bahia em setembro de 1971.

"A opinião pública está sendo produzida através desses símbolos. Há mais de 10 anos, quando estive na casa da Anne Frank, na Holanda, chegando ao fim da excursão pelo museu foi exibido um vídeo com os movimentos neonazistas atuais, que é o que continua acontecendo hoje. É para isso que serve a memória: tentar educar a população no sentido de dizer que ‘certos vultos representam o que há de pior no mundo’", completou Cecília. 

Tags: alemanha, brasil, eua, extrema direita, feridos, internacional, lamarca, memoria, mortos, neonazistas, protestos, simbolos, trump, virginia

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