Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Internacional

EUA alertaram pilotos sobre perigo no espaço aéreo ucraniano

Jornal do Brasil Viviane Vaz 

Ainda não se sabe quem derrubou o avião da Malaysia Airlines, mas quem o fez dispunha de recursos para saber que a aeronave levava civis. "Hoje em dia, qualquer pessoa com um celular e internet pode identificar a posição de uma aeronave", explica um piloto militar ao Terra que pediu para não ser identificado. Ele explica que através de sites na internet com informação via satélite e aplicativos de celular, descobrir que o Boeing 777 voo MH17 sobrevoava a região ucraniana de Donetsk, perto da cidade de Torrez, a 50 Km da Rússia, não era difícil. A possibilidade de aviões militares mascararem sua real posição e identificação, porém, cria um risco extra para os aviões civis em áreas de conflito.

Por outro lado, disparar um míssel em direção a um avião requer treinamento. "Não é possível derrubar um avião naquela altura com um míssel no ombro", revela o piloto, ressaltando que a aeronave voava ao nível de voo 330 (cerca de 33 mil pés ou 10 mil metros). De acordo com o órgão regulador de tráfego aéreo europeu, Eurocontrol, a rota tinha sido fechada pelas autoridades até o nível 320. Segundo o piloto entrevistado pela reportagem é também responsabilidade de cada empresa alertar seus funcionários sobre os riscos da rota. "Todo piloto antes de viajar recebe um Notam do lugar de onde decola com o destino da rota. Antes de decolar, tem que checar não só o combustível e o tempo de voo, mas também o Notam". Os "avisos aos aviadores" ou Notam (Notice for Airmen) são uma série de avisos internacionais sobre todo o percurso, adiantando o que o piloto pode vir a encontrar no caminho aéreo.

Hoje todas as companhias aéreas passaram a evitar regiões da Ucrânia em conflito com a Rússia. A Malaysia Airlines se defende por não ter adotado esta posição antes, alegando que a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, em inglês) não havia colocado restrições ao voo. A IATA, entretanto, também defende sua decisão. "As companhias aéreas dependem de governos e autoridades de controle de tráfego aéreo para avisá-las que espaço aéreo está disponível para voar, e elas se organizam de acordo com esses limites", disse o presidente da IATA, Tony Tyler, por comunicado. "É como dirigir um carro. Se a estrada está aberta, você assume que é segura. Se for fechada, busca uma rota alternativa", explica Tyler.

Somente após o desastre de ontem, o governo ucraniano notificou o Eurocontrol e ordenou hoje o fechamento do espaço aéreo sobre o leste do país, nas regiões de Donetsk e Lugansk. Mas desde abril a agência que controla a aviação nos EUA - a Federal Aviation Administration (FAA) - alerta às empresas sobre o perigo na Ucrânia e aconselha desvios de rota. "Mas as empresas pensam em desvio de rota pesando riscos e efeito econômico. Na verdade, ninguém imagina que uma coisa dessas vá mesmo acontecer", indica o piloto.

O Terra obteve acesso a um Notam, emitido no dia 3 de abril deste ano, em que a agência afirma que o espaço aéreo sobre a região da Crimeia apresenta perigo para as aeronaves, devido ao conflito envolvendo a Ucrânia e a Rússia. "Operações de voo estão proibidas até segunda ordem, no espaço aéreo sobre a Crimeia, no Mar Negro e no Mar de Azov", dizia o documento.

Para a navegação aérea, a pergunta que permanece é qual serão os impactos desta tragédia para a aviação civil. Os desvios de rota podem significar mais custos em combustíveis e tempo para os passageiros. E a Ucrânia não é hoje o único país com zonas de conflito. "Várias empresas aéreas mantêm hoje rotas por espaços aéreos de países em conflito", afirma o piloto. "O pior é que em alguns casos a geografia não deixa muitas opções sobre a mesa", lamenta.

Portal Terra


Tags: UCRÂNIA, acidente, avião, malasia, queda

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