Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Internacional

Juan Carlos: chega ao fim um reinado de polêmicas

Cientista político lembra que monarquia espanhola não tem mais tanta força política

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

Após um governo marcado por polêmicas, o rei da Espanha, Juan Carlos, abdicou ao trono nesta segunda-feira (2). Em seu discurso, o monarca alegou que o filho, Felipe de Borbón, está pronto para assumir o comando do país. A renúncia veio em momento propício para um rei que deseja salvar a sua monarquia e, para isso, precisa revigorar a imagem do império. A maior parte da população e os partidos de esquerda querem o fim do regime monárquico. Prova é que uma manifestação, liderada pelos partidos Esquerda Unida e Podemos, foi marcada para esta segunda-feira, pedindo o fim da monarquia. O ato aconteceu em um dos mais importantes pontos turísticos da cidade de Madrid, a praça Puerta del Sol, e reuniu milhares de pessoas. Outros atos aconteceram em mais de 30 cidades espanholas. A ascensão de Felipe tem tudo para ser uma tentativa de renovação e de suavizar as polêmicas do governo Juan Carlos.

O cientista político da Unicamp, Valeriano Costa, lembra que a monarquia espanhola não possui mais tanta força política, mas foi importante na manutenção da estabilidade política em um país com propostas partidárias acentuadamente polarizadas, principalmente após a guerra civil espanhola. Assim, segundo Valeriano, "a monarquia continua sendo importante, mas perdeu sua força de equilíbrio a medida que coisas pontuais, sem muita importância política, mas com repercussão ética bastante negativa, vieram à tona". Dessa forma, as relações entre direita e esquerda se estremeceram, levando a oposição a pedir o fim do regime monárquico.

Juan Carlos anuncia que vai abdicar
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"É um momento delicado para a monarquia. Ela tem pouca relevância política e ainda foi se envolvendo em escândalos. A renúncia de Juan Carlos é uma tentativa de manter a monarquia", avalia o cientista político. Sobre a possibilidade do fim do Império, Valeriano acredita que as chances sejam pequenas. "Quem está no governo é a direita. Embora os grupos pró monarquia não estejam de pronunciando muito, se houver uma mobilização mais intensa pró fim da monarquia, esses núcleos vão se manifestar. Acredito que a República seria uma demanda apenas da esquerda e ela aumentaria os conflitos de interesses", justifica.

Para o professor Kai Kenkel, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, a atitude de Juan Carlos, "foi uma tentativa de resgatar a imagem desgastada da família real". O professor explica que a popularidade de seus membros está afetada pelo que chamou de "acúmulos de escândalos e problemas". Kai diz que, em pesquisa popular, 85% da população espanhola era favorável à abdicação.

Sobre a competência de Felipe de Borbón para se tornar rei, Kai avalia que o filho de Juan Carlos tem todas as condições para assumir o cargo. "Ele tem outra formação, diferente do pai. Um outro perfil e uma maior aceitação popular. Acredito que Felipe está bem preparado. Além de tudo isso, ele não tem a imagem manchada com escândalos, não que se tenha conhecimento", analisa Kai.

Escândalos

 Em abril 2012, a Espanha passava por uma grande crise econômica, com a taxa de desemprego superior aos 20%. O rei Juan Carlos, então, adoeceu. Uma queda lhe rendeu uma fratura no quadril. Quando as causas do acidente vieram à tona, o monarca teve que responder por um dos maiores escândalos de seu governo. Presidente de honra de uma das maiores ONGs de ambientalistas do mundo, a WWF, o rei foi caçar elefantes em um safári em Botsuana. Para o passeio, ele teve que desembolsar entre 7 mil e 30 mil euros, preço cobrado para diferentes pacotes de caça na região, além de todas as despesas da viagem de luxo.

Através da internet, mais de 50 mil pessoas se mobilizaram para pedir que Juan Carlos deixasse seu posto na WWF, o que de fato aconteceu. Após 44 anos como presidente honorário, o monarca foi destituído pelo braço espanhol da ONG. Uma assembléia extraordinária foi marcada para discutir o caso e encerrada com 226 votos a favor da decisão e 13 contra. Em nota, a WWF disse que "embora este tipo de caça seja legal e regulamentada, tem recebido muitas manifestações de protesto dos membros afiliados e da sociedade em geral".

A saúde de Juan Carlos foi se tornando preocupante ao longo do tempo. Ao todo, foram nove cirurgias, de 2010 a 2012, algumas também associadas à prática esportiva. Em maio de 2010, o monarca passou pela primeira operação: uma intervenção para retirar um nódulo pulmonar. Um problema no quadril, decorrente da artrose e agravado pela prática esportiva, também levou o rei para a mesa de cirurgia alguma vezes. A mais polêmica foi justamente após o acidente em Botsuana.

As relações familiares de Juan Carlos também estamparam muitas manchetes de jornais e revistas ao longo dos anos. O casamento do monarca passou por uma crise que, ao que tudo indica, nunca se resolveu. Juan Carlos e Sofía se casaram no dia 14 de maio de 1962 e, dessa união, nasceram Elena, Cristina e Felipe. Porém, relatos dão conta de que o rei não se dá com a rainha Sofia e que o casamento se mantém para evitar mais escândalos na família real. Há poucos dias de completarem 50 anos de união, a rainha chegou a falar em separação. O casal não comemorou as bodas de ouro, mas também não se divorciou. Os episódios de infidelidade do monarca muitas vezes foram acobertados pela imprensa espanhola, até o safári de Botsuana. Nas polêmicas fotos tiradas após a caça, o rei aparece ao lado da princesa Corinna zu Sayn-Wittgenstein. A imprensa tomou as dores da rainha Sofía e o caso extraconjugal foi conhecido no mundo inteiro.

Além do casamento conturbado, a filha primogênita, Cristina, assina mais um dos escândalos do pai. Casada com Iñaki Urdangarín Liebaert, o Duque de Palma de Mallorca, a princesa responde a um processo de corrupção e, ao que tudo indica, será indiciada ainda essa semana. A renúncia de Juan Carlos mais uma vez se mostra propícia, tendo sido anunciada antes que a filha fosse condenada. Afinal, o peso maior recairia sobre o pai e não sobre o irmão de uma integrante da família real condenada por corrupção. A questão é que Iñaki Urdangarín está sendo acusado de envolvimento em um esquema de desvio de fundos e lavagem de dinheiro por meio da empresa imobiliária Aizoon, que mantém com a mulher, sendo 50% do capital controlado por cada um.

A suspeita é que a Aizoon tenha envolvimento no caso do Instituto Nóos, que investiga o suposto desvio de dinheiro público para o Instituto através de convênios para a realização de diversos eventos, em 2010. O promotor do caso acredita que não existem evidências que Cristina tenha cometido crimes fiscais, mas entende que a infanta deveria pagar, por responsabilidade civil, pelo menos 600 mil euros, metade do valor recebido pela Aizoon em recursos públicos que, supostamente, teriam sido desviados pelo Instituto Nóos.

Este é um dos episódios mais polêmicos em que a família real já esteve envolvida. Em sua defesa, Cristina sustenta que desconhecia aspectos da gestão da empresa e diz que confia totalmente no marido. O desconforto gerado pelas suspeitas foi tamanho que os filhos do casal começaram a sofrer bullying na escola. A situação se tornou insustentável e a família se mudou para a Suíça.

Em seu discurso de abdicação, o monarca disse que “Felipe encarna a estabilidade e a instituição da monarquia, tem maturidade para reinar e começar uma nova fase, e terá o pleno apoio da esposa Letizia". Com todos os aspectos favoráveis à sua renúncia, Juan Carlos admitiu: "Uma geração mais jovem merece continuar com novas energias”.

*Programa de estágio do Jornal do Brasil

Tags: Corrupção, crise, Espanha, Europa, monarquia, política

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