Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Julho de 2014

Internacional

Os dois papas mais importantes da Igreja, agora santos

João Paulo II, o Papa popular, e João XXIII, o Papa progressista, são canonizados

Jornal do BrasilGisele Motta  *

Dois Joões. Dois papas. Duas figuras célebres que vão virar santos da Igreja Católica, neste domingo (27). Porém, não poderiam ter sido mais diferentes em seus papados e em suas perspectivas para a Igreja. Segundo especialistas, o atual Papa Francisco, canonizando tanto João Paulo II quanto João XXIII, quer demonstrar respeito pelo lado conservador da Igreja, mas uma busca séria pela renovação da instituição. 

Segundo Alexandre Marques, professor do Programa de Estudos e Pesquisa das Religiões da Uerj, o Papa Francisco está dando um grande passo ao fazer essas escolhas. "Os dois papas tem uma coerência moral muito grande com os valores da igreja, por isso estão sendo canonizados. Mas tem perspectivas muito diferentes", comenta Marques. 

João Paulo II (1920-2005), um Papa midiático e popular, já estava em processo de canonização, proposto pelo antecessor de Francisco, Bento XVI. Ao indicar a canonização de João XXIII, Francisco busca demonstrar a força das alas progressistas na Igreja. "O Papa está provocando. Levantando uma questão importante: o reformador da igreja, que foi João XXIII, tem que estar em pé de igualdade com o que foi o Papa extremamente carismático mas retrogrado no âmbito político e social, que foi João Paulo II", explica Marques. 

João XXIII (1881-1963), nascido Angelo Giuseppe no interior da Itália, teve um papado curto e progressista. Foi o Papa responsável pela convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1961, encontro que buscava fazer a Igreja refletir sobre si mesma. Marques explica que esse conselho foi um dos grandes momentos da Igreja. "Nesse Concílio, ele exigiu uma  renovação profunda. Buscou melhorar a relação entre judeus e cristãos, ele realmente abriu as portas da Igreja para o mundo, para o diálogo com os direitos humanos, com a ONU, e com as questões sociais. Proporcionou uma humanização profunda. Foi a presídios na Itália, entrou na sinagoga de Roma e buscou diálogo com anglicanos", explica. 

João Paulo II: adorado pelo povo e pelos políticos
João Paulo II: adorado pelo povo e pelos políticos

O padre Luis Correa, teólogo e professor de História das Religiões na Pontifícia Universidade Católica (PUC), reitera essa ideia e diz que João XXIII foi o Papa mais progressista que a Igreja já teve, e ao mesmo tempo, muito querido pelo povo. "Ele era chamado de 'Papa bom' ou o papa da bondade. Nesse Concílio, que durou alguns anos, a igreja tem grandes avanços, como aceitar a liberdade de consciência, o diálogo inter-religioso, a independência da ciência", completa. Ao mesmo tempo, João XXIII era considerado uma pessoa humilde, que era vista a noite, disfarçado de jardineiro, andando pelas ruas para falar e aconselhar as pessoas. 

O Papa João Paulo II, nascido Karol Wojtyla, é uma das figuras mais carismáticas que a Igreja Católica já produziu. Polonês, ele era um estudante universitário quando a Alemanha invadiu a Polônia, em 1939. Aos 22 anos, começou seus estudos religiosos dentro da universidade, num seminário clandestino e foi declarado Papa aos 58 anos, em 1978. Nenhum Papa atendeu tantos fieis nem viajou tanto para disseminar sua fé.

João XXIII: 'o papa bom' um dos religiosos mais progressistas da igreja
João XXIII: 'o papa bom' um dos religiosos mais progressistas da igreja

João Paulo II era um papa popular tanto para os fieis quanto para os políticos "As pessoas  viam ele fazendo orações de madrugada, ele conseguia dialogar irrestritamente, tinha um bom trato com qualquer político ou popular. Ele tinha um poder de carisma muito acentuado, a ponto de todos os chefes de estado se dirigiram a ele em algum momento", comenta Marques. 

Porém, ele teve uma posição política conservadora. "Ele  trabalhou massivamente em favor dos EUA contra o comunismo no leste europeu. Ele era, por exemplo, contra a Teoria da Libertação", comenta Marques.

Para padre Luis, a canonização de João XXIII, junto com a de João Paulo II, mostra a preocupação de Francisco em abrir novos caminhos para a Igreja Católica. "Várias medidas dele indicam uma reforma que está a caminho. Um dos exemplos foi sua primeira Exortação Apostólica, a "Alegria do Evangelho", uma carta aos membros da Igreja e aos fieis com recomendações e diretrizes. Apesar de manter a posição tradicional da Igreja em assuntos polêmicos como o aborto e o papel da mulher na Igreja, a carta de Francisco demonstra uma vontade de diálogo, de abertura da Igreja e uma grande preocupação social. "Essa carta mostrou todo um apelo a uma renovação pastoral, uma igreja mais próxima do povo, menos moralista, e quanto mais a igreja assimilar essa carta dele, mais ela vai mudar", comenta o padre. Além do conteúdo da Exortação, o padre ainda relembra que o Sínodo da Família, para o qual Francisco mandou um formulário para as Igrejas do mundo, pedindo opiniões sobre a família contemporânea, envolvendo questões como casamento de homossexuais e adoção de crianças. 

Ao serem canonizados, e passarem a ser considerados santos, os dois papas alcançam um culto global. Ambos já são beatos, um reconhecimento da santidade da pessoa pela Igreja. "Um beato tem um culto regional, ou nacional e o santo é um culto universal. Ele pode estar em igrejas do mundo todo. Há um reconhecimento da igreja pelo valor evangélico da vida do santo", conclui.

>> Cronologia

João Paulo II

Nasceu na Polônia, no dia 18 de maio de 1920

Sua mãe morre quando ele tinha 9 anos e seu irmão quando ele tinha 12 anos

Entrou na universidade em 1938

Depois de receber o chamado para a Igreja, começou seus estudos em 1942

Foi ordenado como padre em 1946

Começou seu doutorado em Teologia em 1948

Em 1958 foi indicado como auxiliar do Bispo da Cracóvia pelo papa Pio XII

Foi indicado pelo Papa Paulo VI como arcebispo de Cracóvia e logo depois como cardeal, em 1967

Participou do Concílio do Vaticano, convocado por João XXIII, entre 1962 e 1965

Em 1978 foi eleito papa

Em 1981 sofreu o atentado que chocou o mundo

Em 2005, morre, sendo beatificado seis anos depois, em 2011

João XXIII

Nasce na cidade de Bérgamo, na Itália, no dia 25 de novembro de 1881

Em 1896, com 15 anos, entra na ordem franciscana

De 1901 a 1905 foi aluno do Pontifício Seminário Romano, graças a uma bolsa de estudos da diocese de Bérgamo

Recebeu a Ordenação sacerdotal a 10 de Agosto de 1904, em Roma, e no ano seguinte foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo

Em 1915, quando a Itália entrou em guerra, foi chamado como sargento sanitário e nomeado capelão

No fim da guerra abriu a "Casa do estudante" e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Em 1919 foi nomeado diretor espiritual do Seminário.

Em 1921 foi chamado a Roma por Bento XV como presidente nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé

Em 1935 trabalhava na Grécia e na Turquia quando a Segunda Guerra Mundial estourou

Durante os últimos meses do conflito mundial, e uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou pela normalização da vida eclesial na França

Em 1953 foi nomeado Cardeal e enviado a Veneza

Depois da morte de Pio XII, foi eleito Sumo Pontífice a 28 de Outubro de 1958

Faleceu no dia 3 de Junho de 1963.

Foi nomeado beato em 2010, por João Paulo II

* Do programa de estágio do JB

Tags: CANONIZAÇÃO, igreja católica, joão paulo ii, joão xxiii, papa francisco

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