Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Internacional

'Quero justiça', diz mãe de 1º venezuelano morto em protesto

Portal Terra

Na esquina onde, há um mês, Bassil Dacosta morreu, em La Candelaria, Caracas, há uma placa comemorativa, flores e cartazes com mensagens em sua memória. Era um carpinteiro e estudante de publicidade e tinha 24 anos. O tiro que ele levou na cabeça, na noite de 12 de fevereiro não só o matou, mas tornou-se um símbolo trágico: foi a primeira vítima de uma lista de 28 pessoas, de acordo com a Procuradoria Geral do país, que morreram em meio a onda de protestos, tumultos, bloqueios de estradas e ações de fiscalização do governo, que completou um mês, na Venezuela.

Sua mãe, Jeneth Frías Dacosta, tem muito fresco na memória o sentimento que teve quando ouviu a notícia: "Foi como se o mundo tivesse caído sobre mim, uma dor muito grande". Seu filho nunca tinha assistido a manifestações políticas, mas, desta vez, decidiu acompanhar um primo para uma marcha organizada por líderes da oposição e da universidade com uma dupla finalidade: para exigir a libertação dos estudantes presos em protestos dos dias anteriores em Táchira, estado fronteiriço - ainda que sobrecarregado de descontentamento -, e pedir nas ruas a saída do presidente Nicolas Maduro, no poder há menos de um ano. 

Uma metáfora servia como pano de fundo: o bicentenário da Batalha de Vitória, de 1814, um combate da Guerra da Independência declarado como Dia da Juventude, em memória aos universitários mortos na ação militar contra as forças coloniais espanholas.

Frías sabe que o assassinato de seu filho é um sintoma de uma escalada do conflito político entre partidários e aqueles que rejeitam o sucessor de Hugo Chávez e a continuidade do projeto socialista iniciado pelo falecido presidente: "Muitos inocentes já morreram e foi pela desunião que incutiram entre os venezuelanos".

O assassinato de Dacosta foi registrado em vídeo e fotos que têm servido como provas na investigação contra funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência - organismo dirigido pelo governo de Maduro - acusados de desobedecer ordens para não deixar os seus comandos e usar armas de fogo contra manifestantes. A maioria das pessoas que estiveram no centro de Caracas naquela tarde se dispersaram logo que chegou à Procuradoria Geral da República, que foi ponto de chegada da mobilização. Um grupo, no entanto , manteve-se e começou um ataque com pedras e coquetéis molotov na sede da instituição e a desordem tomou conta da área onde também chegaram grupos de civis armados simpatizantes ao governo - popularmente chamados de coletivos - para tirar os manifestantes da área à força.

Dacosta foi um dos jovens que correram para escapar dos disparos. Uma gravação, que viralizou em redes sociais, mostra o momento em que o jovem caiu subitamente, um momento registrado na retina de seus familiares. "Ouvi dizer que há funcionários presos pela morte de meu filho, mas nada disso foi relatado para mim pessoalmente. Quero justiça". Uma das pessoas investigadas por ter feito o disparo é um guarda da escolta de Miguel Rodriguez Torres, Ministro do Interior, Justiça e Paz do governo de Maduro e Major General do Exército. O estudante não morreu imediatamente: pessoas que estavam no local o levaram para receber ajuda médica, mas o dano foi irreparável. "São muitas mães que, como eu, sofrem por esta situação, que mata nossos filhos", diz Frías.

Tags: Atos, Caracas, crise, política, protestos, ruas

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