Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Internacional

Avião sumido: "há indícios de terrorismo", diz especialista

Portal Terra

O avião da Malaysia Airlines que está desaparecido desde a última sexta-feira, 7 de março, pode ter sido alvo de ataque terrorista, segundo o comandante e professor da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUCRS, Paulo Villas Boas. Em entrevista ao Terra, o professor, que tem mais de 18 mil horas de voo e 34 anos de experiência em aviação, disse que acredita que a teoria de terrorismo não pode ser descartada, já que alguns acontecimentos corroboram para este fato. O comandante nega outras hipóteses levantadas, como a do pouso do avião em “algum lugar do planeta”, ou da captura do “Boeing por óvnis”. 

Leia a íntegra da entrevista exclusiva de Paulo Villas Boas. 

O que o senhor acredita que aconteceu com o avião?

Eu não tenho nenhuma teoria, porém, baseado nos fatos apresentados, posso formular uma hipótese, corroborando com o comentário da CIA, de que pode ter sido um ato de terrorismo. Segundo informações, o transponder [dispositivo que emite um sinal de radar que envia informações de inscrição e determina a posição da aeronave, altitude e velocidade na tela do controlador] foi desligado 50 minutos depois da decolagem e, aparentemente, o avião pode ter mudado de rota.

Não é comum o transponder ficar desligado, pois a aeronave tem dois aparelhos: se um estraga, o outro entra em ação. É quase impossível os dois estarem estragados. É um indício de terrorismo. Ao mesmo tempo em que pode ter sido isso, não há destroços, o que é quase impossível. Temos pouquíssimas informações, mas acho que tudo corrobora mais com isso. 

O Boeing 777 é um dos mais seguros do mundo. Que tipo de falha poderia causar o desaparecimento da aeronave?

É um avião muito moderno, muito seguro, como são outros aviões da Boeing. Não acredito em uma falha inesperada de controlabilidade [propriedade importante de um sistema de controle, para desempenho em problemas de controle, tais como a estabilização de sistemas instáveis].

A CIA ter dito que pode ter sido um atentado terrorista, corrobora. Claro, quando uma agência de inteligência fala isso, não sabemos se é uma opinião ou uma informação plenamente fundamentada em dados, pois a exposição de dados poderia comprometer a investigação, mas isso já nos deixa de sobressalto. O avião mudou a posição de rota e o transponder foi desligado. Por que não há destroços? Isso não saberia explicar.

Em uma reportagem especial sobre o caso, a revista Wired coloca, que, em casos de extrema urgência, comandantes são ensinados a tratar como prioridade a resolução do problema, e só depois, comunicar o ocorrido. É este o procedimento?

Sim, mas esses procedimentos de emergência na aeronave levam apenas alguns segundos. As emergências mais graves em aviões estão todas previstas em um checklist, sendo que, para casos muito urgentes, alguns itens devem ser decorados. Assim, mesmo os procedimentos para situações graves, levam, em média, de 30 segundos a 1 minuto para serem realizados, a menos que tenha sido alguma explosão súbita; inclusive tem uma expressão internacional para isso que é “Mayday, Mayday, Mayday” [chamada radiotelefônica de emergência ou socorro, do francês m'aider ou m'aidez, que significa "venha me ajudar"]. Depois desse período, o piloto consegue se comunicar no rádio e explicar alguma coisa.  

Numa emergência muito grave, o piloto pode usar o rádio, tendo condições de resolver de maneira instantânea. São sempre dois pilotos: um faz a manobra e as ações iniciais e o outro se comunica no rádio. Na minha opinião, é mais um indício de que não houve uma emergência, evidenciando um possível ato de terrorismo, como em 11 de setembro. É difícil dar um prognóstico.

Aviões deste porte tem um localizador de sinal de emergência que a tripulação pode acionar fácil e rapidamente. Qual seria a explicação para esse dispositivo não ter sido acionado?

Sim, ELTs (Emergency Locator Transmitters). No caso de um impacto da aeronave, pelo sistema de GPS, em desaceleração violenta, ele liga. Utiliza-se mais para o sistema de rastreamento, mas se sofrer um impacto violento, pode ser danificado, destruído. Dentro da água é muito mais difícil de perceber as ondas de identificação, pois elas enfraquecem bastante. Em águas profundas, já não se recebe o sinal.

Outras teorias dão conta de que o avião poderia ter pousado em algum lugar do planeta ou até ter sido “interceptado por um objeto não identificado”. O que acha disso?

Não acredito que possa ter pousado em outro lugar. É impossível. Hoje em dia não tem um lugar que não seja conhecido no planeta. E outra coisa: nós temos dezenas de satélites espiões (EUA, Rússia, China) que são capazes de fotografar uma bola de golfe no chão. Os satélites estão rastreando, ninguém fala sobre isso, mas eles estão ativos. Seria impossível não fotografar um Boeing 777 pousado em algum lugar. E quanto aos óvnis, eu tenho 18 mil horas de voo e 34 anos de aviação, e jamais vi nada. Já vi meteoros, satélites, mas, nada além disso. Não corroboro com essa teoria.

É verdade que as aeronaves saem do alcance do radar a 150 milhas da costa? Isso pode ter acontecido com o voo da Malaysia Airlines?

Nós temos radares que têm um alcance limitado, correspondendo à curvatura da Terra, que emite ondas de alta frequência. Há vários radares ali na península de Malaca. Olhei no mapa e acho que aquela área tem número suficiente, ou seja, a rota da aeronave estaria sempre sob a cobertura de radar. Pode haver um ponto cego, mas não tenho certeza. No meio dos oceanos Pacífico ou do Atlântico não há radar, mas naquela região, sim.

Quais são as orientações que a tripulação recebe como prevenção e ações em um ato de terrorismo?

As cabines são blindadas, caso haja ameaça terrorista, não se pode deixar ninguém entrar na cabine. Há códigos para aceder à cabine, uma palavra e uma senha; há uma série de requisitos para evitar [entradas indesejadas]. Porém, todos os procedimentos têm uma brecha, nunca sabemos. Por uma característica cultural, os orientais costumam seguir os procedimentos à risca. São muito rigorosos. As empresas asiáticas costumam cumprir os procedimentos na íntegra, inclusive os antiterroristas. Por exemplo, as empresas coreanas de aviação recomendam que, após um voo, o piloto vista roupas civis ao voltar pra casa, evitando sequestros ou eventos similares.

A Boeing oferece um avançado sistema chamado Airplane Health Management que fornece solução de problemas e monitoramento de voos em tempo real, mas esse sistema não estaria sendo usado pelo voo MH370. Se o sistema estivesse em uso, as coisas poderiam ter acontecido de maneira diferente? Poderíamos saber onde está o avião?

No caso da Air France [voo AF447 desapareceu no Atlântico por duas semanas, quando fazia o trajeto Rio de Janeiro - Paris, em junho de 2009], algumas informações foram passadas a Toulouse por meio desse sistema. O fato de que o aparelho estava desligado, vai dificultar muito as buscas. Esse serviço não é obrigatório, é a empresa que opta por tê-lo. É mais caro, sofisticado, no entanto, a parte de transmissão até poderia estar em pane, mas a de registrar não, pois isto impediria a decolagem. Cada vez mais as empresas seguem os requisitos dos órgãos governamentais. Nenhuma empresa sai com um aparelho crucial em pane.

Há a hipótese de que possa ter havido uma descompressão explosiva na aeronave. Quais seriam as chances disso acontecer com o voo da Malaysia Airlines? O que isso poderia ter provocado?

Numa descompressão comum, o piloto tem tempo de reagir, mas a descompressão explosiva pode ser causada por uma bomba ou uma falha estrutural, o que considero muito difícil. A última vez que houve uma falha estrutural foi em 1988, no Havaí, [o Boeing 737-297 da Aloha Airlines sofreu um grande dano após uma descompressão explosiva em pleno voo, quando o teto do avião foi arrancado, e, mesmo assim, os pilotos pousaram sem problema, eu acho que no aeroporto de Kahului, em Maui]. É muito pouco provável haver uma falha estrutural, porque o histórico não mostra um evento dessa natureza.

Tags: avião, malasia, passageiros, queda, vietnã

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