Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Internacional

'FT': Pobre espera da Venezuela que o governo cumpra as suas promessas

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O correspondente do jornal Financial Times em Caracas, Andres Schipani, publica nesta quarta-feira (5/3) uma reportagem descrevendo o cenário na Venezuela após os protestos contra o governo, que deixaram pelo menos 17 mortos no país nas últimas quatro semanas - "em uma versão sul-americana da revolta popular da Ucrânia". Schipani retrata que nas portas dos supermercados estatais próximos a uma favela no leste de Caracas, filas se formam à procura de alimentos cada vez mais escassos, e aumenta o desconforto da população. 

Schipani destaca que Nelson Aranda se mantém na posição de um defensor da "revolução bolivariana" de Chávez, por enquanto. "No entanto, suas queixas são um sinal de que a maior ameaça da revolução não pode mentir com a oposição, mas dentro de suas próprias fileiras", destaca o texto. Schipani explica ainda que o apoio popular para a revolução, mesmo entre os pobres da Venezuela, a base de apoio a Chávez  enfraqueceu desde quando o ex-presidente morreu há exatamente um ano. Para o jornalista, mesmo aqueles mais crentes no socialismo de Chávez não pode ignorar a inflação galopante do país, a escassez crescente e a incapacidade de Nicolás Maduro, o sucessor ungido de Chávez como presidente.

"Há uma crescente frustração, mesmo dentro das [pró-governo] bases chavistas", destaca o jornal do depoimento de Margarita López Maya, uma historiadora da Universidade Central da Venezuela. Ela acrescenta ainda que - "A atual crise econômica e instabilidade não são apenas um produto de Maduro, também são parte do legado de Chávez". E Schipani considera que nada disso é novidade para "os alunos que atiravam pedras em manifestantes anti-governamentais nos mais inteligentes bairros de classe média de Caracas". Durante o feriado desta semana de carnaval, informa o jornalista, os manifestantes mantiveram os seus atos, o que mostra um país dividido depois de Maduro vencer a eleição presidencial no ano passado por uma margem estreita.

Citanto os últimos acontecimentos relacionados ao cenário da Venezuela, Schipani faz uma relação do sentimento anti-governo a uma exibição na cerimônia do Oscar, no momento em que o vencedor Jared Leto disse que apoiava os "sonhadores" de oposição da Venezuela, e outras celebridades também twitaram em seu apoio - "um sinal de que o brilho internacional da revolução de Chávez, que anteriormente se deleitava com o apoio de estrelas de Hollywood de uma tendência liberal, também está desaparecendo", comentou o jornalista do FT.

Em sua reportagem, Schipani avalia que embora não haja nenhum sinal de agitação nesse sentido, a Venezuela deve passar por uma mudança de estilo aos moldes ucraniano de regime, com a exasperação crescente que levou os manifestantes às ruas de bairros de classe média de Caracas, começando a permear lentamente em redutos pró-governo, incluindo até mesmo notória favela da capital "23 de janeiro". Ele revela ainda que há funcionários do governo usando a assinatura vermelha da revolução de Chávez, ocupados em redecorar os antigos quartéis militares, que se tornaram um mausoléu de seu líder, em preparação para as celebrações oficiais desta quarta-feira (5/3). "Graffiti cobre paredes próximas: 'Chávez vive! A luta continua!'", descreve o jornalista. E complementa no texto: "No entanto, mesmo aqui, seus seguidores têm aumentado o seu estresse, particularmente de escassez, que deixou prateleiras das lojas sedentas de bens básicos, como papel higiênico".

Em um dos depoimentos citados na reportagem, Adalberto Mansilla, um chavista auto-proclamado que vende pão próximo ao túmulo de seu herói, afirma que - "as coisas mudaram muito desde que Chávez morreu. O custo de vida aumentou e as faltas são piores. É calmo aqui, por enquanto. Mas as pessoas estão ficando cansadas". Segundo Schipani, Maduro atribuiu os problemas enfrentados a "sabotadores capitalistas" e "conspiradores" que lançaram "guerra econômica" e uma "tentativa de golpe" contra o seu governo. Porém, muitos economistas dizem que os problemas econômicos da Venezuela vem de longa data, referentes aos preços e controles cambiais, como as primeiras medidas impostas por Chávez em 2003, que levaram a uma escassez da moeda estrangeira enquanto a economia dependente de importação.

De acordo com o Financial Times, o déficit fiscal da Venezuela é estimado em 16% do PIB, e é em grande parte financiado por emissão de moeda. Isso ajudou a empurrar a taxa de inflação acima de 50%, corroendo o poder de compra dos venezuelanos. A taxa de câmbio também está sobrevalorizada, com a taxa de mercado negro 14 vezes acima da oficial. "Capacidade de Maduro em resolver os crescentes problemas econômicos do país tem sido frustrada pela sua aderência frouxa de fações opostas dentro de seu governo", diz o texto de Schipani.

Tags: Caracas, chávez, financial, maduro, reportagem, times

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