Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Internacional

'Clarín': brasileiros orgulhosos por morar na Argentina

Jornal do Brasil

O jornal Clarín publica nesta quarta-feira (29/1) uma artigo de Bárbara Reinhold, enfocando o sentimento dos brasileiros que moram na Argentina. No artigo "Brasileiros, com muito orgulho, que moram na Argentina", os personagem contam os seus motivos, satisfações e desafios de morar no país ao lado. O texto começa com a história de Sergina Boa Morte, de 73 anos, que do bairro Vila Buenos Aires, em São Paulo, chegou em 1971 em sua Buenos Aires querida, como conta enquanto canta o tango de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera. Ela veio depois de participar de um festival de dança e música na Rússia, porque a convidaram para conhecer a Argentina. E mora em Buenos Aires desde essa época, nunca mais foi embora.

Quando um estrangeiro visita uma terra desconhecida, a comparação com o estilo de vida do lugar de origem é inevitável e, ao decidir residir em outro país, os costumes e tradições próprias se integram com as novas, as lembranças que dão saudades são guardadas e valoriza-se o que é novo. Apesar da proximidade geográfica, brasileiros eargentinos têm modos de vida diferentes. Sergina diz: "Há diferenças porque mais da metade do Brasil tem herança de raízes africanas e tem a idiossincrasia do canto e da dança. Estamos acostumados com isso, daí vem a famosa alegria brasileira, que é difícil de o argentino entender exatamente porque é diferente".

Sergina é uma embaixadora do "tudo bem" e através da Associação Cultural A Turma da Baiana tenta mostrar um pouco dessa alegria brasileira na Argentina por meio da dança e da música: "É incrível como os argentinos amam o Brasil, menos no caso do futebol. O que nos une é a cultura. E também acontece ao contrário, tem brasileiros que vêm para cá porque amam o tango", diz Sergina. Paula Barreto tem 36 anos e ela não sentiu uma mudança muito grande no estilo de vida quando, há quinze anos, veio à Argentina para estudar medicina, apesar de depois ter optado pela fisioterapia. "Pelo fato de ser do Rio Grande do Sul foi muito parecido para mim. Como estamos perto da fronteira com o Uruguai e a Argentina,temos coisas muito parecidas, desde palavras que coincidem até os costumes do churrasco ou de tomar chimarrão. Foi muito fácil a adaptação e eles me trataram com muito carinho", conta.

Cardápio

Alisson Fernandes, de 28 anos, encontrou as principais diferenças na comida: "Muitos brasileiros quando chegam dizem que não conseguem comer comida argentina, porque só tem hambúrguer, batata, bife à milanesa e macarrão. No Brasil, a gente come arroz, come feijão, carne". Alisson chegou há dois anos para estudar medicina, porque ficava mais barato para ele e, atualmente, trabalha no Boteco do Brasil,um restaurante especializado em comida brasileira. Alexandre Barreto de Andrade tem 45 anos e mora na Argentina há oito anos, mas vai se mudar para o Marrocos. Ele nasceu em Aracaju, capital do estado de Sergipe, e depois foi para o Rio de Janeiro. É professor de português e, baseando-se em sua experiência pessoal, diz: "Tudo é bem diferente do Brasil. Lá é mais alegre e positivo, mas só na superfície. É quase como um compromisso que os brasileiros têm de serem positivos. As pessoas de mau humor ou reclamonas são muito mal vistas. Mas é superficial, porque ter um amigo que esteja ao seu lado num momento difícil é uma coisa menos frequente. Tudo é sorriso no começo: o caixa do supermercado, o taxista, todos. E isso torna a vida mais leve, agradável e fácil".

No entanto, Alexandre conta que seus melhores amigos são argentinos e que quando chegou na Argentina se surpreendeu com a solidariedade e a amizade sincera dos argentinos. No entanto, diz, é preciso se adaptar para enfrentar a vaidade, o egocentrismo e a soberba. "Entendendo isso, se abre um ambiente muito caloroso e emotivo, que para mim é apaixonante".

 Arrogância?

Para Alexandre, a arrogância do argentino não é um preconceito, mas um fato que ele comprovou com sua experiência. Outros, pelo contrário, descobriram que só se trata de uma imagem preconcebida. Alisson diz: "Sempre me disseram que os argentinos tratam os brasileiros muito mal, mas no primeiro dia que eu chegueieu não vi nada disso". Paula concorda com isso: "Não conhecia muito, só o que via lá no Brasil, o argentino que vai para Florianópolis e faz bagunça. E depois eu vi que não é assim, que existem pessoas soberbas e outras que não são, como acontece em qualquer lugar", diz.

Cada nacionalidade está ligada a um estereótipo ou a palavras que supostamente a representam. Se para o argentino isto inclui uma suposta arrogância, o termo "boludo" e alguma menção a Diego Maradona ou Lionel Messi, o brasileiro será relacionado com o "tudo bem", adança e a alegria. "Na minha experiência pessoal na Argentina, sempre existe essa expectativa com o Brasil do 'pê pê, pêpêpêpê, carnaval carioca'", diz Sergina.

 Mulher brasileira

Ela diz que quando chegou, em 1971, havia uma certa imagem da mulher brasileira que com o tempo se modificou: "Existia o preconceito de que vínhamos para cá para trabalhar sexualmente. Esse processo foi muito doloroso. Além disso, eu sou negra, afro-brasileira, então também havia o preconceito de que era macumbeira. Isso mudou, mas para a brasileira foi muito difícil ter que superar esse estigma. Eu também tive que ouvir que me gritassem'negra de merda, volta para o seu país', essas coisas que se dizem na rua". Esses brasileiros chegaram do país do "tudo bem" para reforçar suas raízes de origem e contagiar o "che, boludo", com a alegria do carnaval que os representa.

Tags: Argentina, Brasileiro, ensaio, nacionalidade, sentimento

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