Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Internacional

Artigo do El País afirma que Cuba caminha para o realismo

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Um artigo do historiador cubano Rafael Rojas, divulgado nesta terça-feira (21/1) no jornal espanhol El País, informa que a Comunidade da América Latina e das Caraíbas (CELAC) se reunirá pela terceira vez no final deste mês, em Havana. Rojas considera que o governo do presidente cubano Raul Castro não foi tão ativo quanto da Venezuela e do Chile, mas adotou algumas iniciativas que podem significar o fim de uma política externa conflitante entre os países. Ele define que, num processo lento e marcado por retóricas, uma mudança na política externa está encaminhando Havana para um contexto realista da América Latina.

Rojas salienta que Cuba tem ficado na vanguarda da CELAC, o governo da ilha permaneceu intocado pelas habituais desavenças com a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA). Não aderiu à ofensiva contra a Aliança Bolivariana do Pacífico, e pressionou a presidente eleita, Michelle Bachelet, a abandonar o fórum ou abrir as negociações com a Bolívia para encontrar uma saída pelo mar. Durante 2013, a relação entre Cuba e o Brasil foi reforçada pelo empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES) para a criação de uma zona livre no porto de Mariel. Além disso, a chancelaria da ilha organizou encontros com empresários e políticos no México, Peru e Colômbia, três nações da Aliança do Pacífico.

Rojas observa que Havana vem tomando muito cuidado para manter boas relações com o governo de Juan Manuel Santos, na Colômbia, o que facilita as negociações de paz entre Bogotá e a guerrilha. Ao contrário do governo venezuelano de Nicolas Maduro, que ignorou o triunfo do candidato do governo, Juan Orlando Hernández, nas últimas eleições presidenciais, em Honduras; o governo de Raul Castro; o de Daniel Ortega; e rejeitou a acusação de fraude lançada pela oposição que reconheceu o novo presidente de Honduras. A guinada na política externa de Cuba teve as suas recompensas e Rojas enumera algumas delas: cancelamento de 70% da dívida com o México, o crédito com a América do Sul; o apoio para a presidência da CELAC.

A questão é saber se esta mudança será permanente ou temporária nos tratados das chancelarias da região, destaca o historiador. Ele analisa que o governo e o partido comunista, especialmente, contribuem para uma incerteza, pois mantém viva uma aliança contrária aos governos bolivarianos do Pacífico, chamados de "direita neoliberal". A Organização dos Estados Americanos (OEA) visa iniciativas para melhorar as relações com os EUA e Europa nos meios de comunicação, especialmente nos mais ligados à ortodoxia dos sites fidelista. A contradição entre uma agenda de conjunto pragmático e uma linguagem intransigente, evidente no último discurso de Raul Castro, em Santiago de Cuba, é uma característica da ideologia oficial desde o estado de recuperação de Fidel Castro, no verão de 2006.

Segundo Rojas, a beligerância diplomática na América Latina, como tantas outras coisas, está lentamente se transformando num atributo de Fidel e Chávez, último da esquerda regional. "Sem Fidel e, acima de tudo, sem Chávez, que renovou a beligerância nos anos após a Guerra Fria, o latino-americanismo retomou a sua forte tradição, que vem precisamente de Simon Bolívar e os primeiros republicanos hispânicos, consolidado entre o final de século XIX e meados do século passado, com José Martí, a Revolução Mexicana, o peronismo e varguismo. A tradição latino-americana, a partir da defesa do patrimônio histórico e cultural da região, entende o continente como uma área republicana, com troca contínua e diálogo com os EUA e Europa, África e Ásia", diz o texto.

A Revolução Cubana, na visão do historiador, apesar de ter impulsionado a descolonização Africana e Asiática, significou mais uma ruptura, que é a continuidade com que o latino-americanismo propôs para a matriz constitucional por meio de um registro da ilha no bloco soviético. Cuba, depois de 1959, passou por um fenômeno curioso, que está apenas começando a ser estudado, pelo qual o velho preconceito anti-indígena cubano do nacionalismo branco rearticulou dentro de uma ideologia marxista-leninista, representando a América Latina e o Caribe como regiões atrasadas e abaixo de Cuba, por seu capitalismo subdesenvolvido. 

Nos últimos 20 anos, a fantasia se dissolveu rapidamente e hoje os cubanos são mais América Latina e Caribe do que nunca em sua história, avalia Rojas. A ALBA contribuiu para o retorno de Cuba à região, mas o processo foi sectário, já que a América Latina entendeu como apenas uma parte e não toda a comunidade. CELAC e seu próximo encontro em Havana será a melhor prova de que há um inconcebível americanismo sem democracia plena, como sociedades heterogêneas e, politicamente plurais, só podem ser integradas através do respeito pela diferença. O governo cubano, que não tolera e reprime qualquer oposição interna, sempre tem a opção de padrões duplos. Reclame em nome do americanismo democrático, a tolerância regional de um sistema comunista, e de aprisionar ou perseguir aqueles que, na ilha, exigem os seus direitos civis e políticos dos quais gozam todos os cidadãos do continente.

A integração de um regime comunista, como Cuba, uma comunidade de repúblicas democráticas, como o latim, estão prontas para entregar, nos próximos anos, o constante desenvolvimento. O governo da ilha é obrigado a justificar a adesão de um sistema político de partido único, o controle estatal dos meios de comunicação e uma oposição ao fórum ilegítimo das democracias continentais. O texto de Rojas diz ainda que as divergências entre o discurso e a prática, torna cada vez mais evidente a necessidade da democratização da ilha. Diante dessa contradição, o jovem político cubano, o governo ou a oposição, mais cedo ou mais tarde, irão compreender que somente em uma democracia Cuba pode maximizar os benefícios da integração regional.

Tags: america, celac, externa, havana, latina, política

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