Jornal do Brasil

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Internacional

Guerra da Síria tem focos de batalha em país vizinho

Portal TerraTariq Saleh

Sentando em um café no bairro de Latifa, no distrito de Jabal Mohsen, Abu Mohamed, 45 anos, líder de um pequeno grupo de milicianos, resume o sentimento da comunidade alauíta em Trípoli, a segunda maior cidade libanesa.

“Hoje, estamos lutando com armas contra os takfiris (islamitas sunitas radicais). Não lutamos contra os muçulmanos sunitas, mas contra os extremistas. Essa guerra não é sectária, é política”, disse ele ao Terra, e com uma pistola automática ao lado.

Alauítas em Jabal Mohsen são quase unânimes em salientar que não têm outra alternativa senão lutar pela sobrevivência de suas famílias, um preço que pagam por sua afiliação e apoio ao regime de Bashar al-Assad, na Síria, e seus aliados no Líbano, como o Hezbollah.

Enquanto os sunitas libaneses, maioria da população em Trípoli, em geral apoiam os rebeldes sírios, a comunidade alauíta, grupo sectário ao qual pertence o presidente al-Assad, mantém estrita aliança com o governo de Damasco.

Rivalidade

A rivalidade entre sunitas e alauítas remonta aos tempos da guerra civil libanesa (1975-1990), quando tropas sírias ocupavam o Líbano e muitas vezes interferiram em disputas políticas e militares a favor dos  alauítas.

A rivalidade voltou com toda força em junho de 2008 e a onda de violência quase mensal se agravou com a guerra civil na Síria. Dois distritos se transformaram em um microcosmo do que ocorre no conflito sírio - o sunita de Bab al-Tabbaneh e o alauíta Jabal al Mohsen constantemente são tomados por tiroteios entre milicianos dos dois lados, assassinatos de líderes locais, destruição de propriedades e a interrupção do cotidiano de seus residentes e da cidade em geral, como escolas e comércio.

Desde 2008, o conflito em Trípoli já deixou 141 pessoas mortas, além de dezenas de feridos, levando o governo libanês a entregar o controle da segurança na cidade ao Exército por seis meses.

“Quanto mais o conflito na Síria aumenta em selvageria, maior é a violência aqui em Trípoli. Muitos radicais sunitas, ligados à Al Qaeda, tentam se vingar em nossa comunidade se seus aliados na Síria são derrotados pelas tropas do governo”, explicou Abu Mohamed.

Ele admite que os confrontos entre Bab al-Tabbaneh e Jabal Mohsen não são recentes, mas acusa o outro lado de iniciar o conflito em anos recentes. “Nós não temos interesse em lançar ataques. Não temos uma capacidade política e demográfica para entrarmos em confronto contra a população majoritária sunita de Trípoli. Mas também não nos renderemos às ameaças, vamos nos defender a qualquer custo”.

Medo e insegurança

Cerca de 400 mil sunitas residem em Trípoli, com cristãos também presentes em pequenos números. Os alauítas correspondem a alguns milhares, quase todos vivendo em Jabal Mohsen. Tanto na Síria quanto no Líbano, os alauítas representam uma minoria em comparação aos sunitas.

Carregando um fuzil Ak-47, o desempregado Bashar, 23, disse ao Terra que o governo libanês era o maior culpado pelo medo que prevalece entre a comunidade de Jabal Mohsen. “Meu país não me protege, os governantes pouco fizeram para garantir nossas seguranças. Eu e meus amigos não tivemos outra escolha senão pegar em armas e defender a nós mesmos”, desabafou.

Segundo ele, o aumento no número de combatentes islamitas radicais entre os rebeldes sírios só trouxe mais preocupação aos alauítas no Líbano. “Os radicais em Trípoli ganharam força e moral, muitos ostentam bandeiras da Al Qaeda e pregam publicamente a destruição dos alauítas no Líbano”.

Outro jovem, Bassem, 24, um padeiro que virou miliciano, nega que todos os alauítas libaneses apoiem incondicionalmente Bashar al-Assad, mas que a queda do presidente sírio do poder poderia ser o fim da minoria não somente na Síria, mas também no Líbano. “Vivemos sempre neste medo e insegurança do que o futuro pode guardar para a gente. Tudo o que podemos fazer é lutar e resistir”, falou ele.

Tanto Bashar como Bassem disseram que já perderam amigos nas mãos de milicianos sunitas, alvejados por tiros que vieram de Bab al-Tabbaneh. “Ele se chamava Wissam, tinha 21 anos, e sonhava em ser engenheiro agrícola. No ano passado, ele passava perto da avenida que separa os dois distritos, e uma bala atingiu sua cabeça, matando-o de imediato. Isso me revoltou muito e foi decisivo para que eu me juntasse a uma milícia para combater e defender nossa comunidade”, enfatizou Bassem.

Já Bashar disse ao Terra que preferia não falar sobre a morte de um amigo no início deste ano. “Ele era como um irmão para mim. É difícil falar disso, prefiro não me manifestar”.

Proteção para alauítas

No dia 20 de dezembro, a organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) divulgou um relatório em que condenou o governo libanês por não fazer o suficiente para proteger os alauítas e a população em geral em Trípoli contra ataques e ameaças de extremistas.

A organização disse em seu relatório que as autoridades libanesas “deveriam tomar todos os passos possíveis para proteger os residentes de Trípoli com o confisco de armas, que vêm sendo usadas para matar as pessoas, como morteiros, lança-granadas e armas automáticas, e também a prisão de atiradores e manter uma presença ativa das forças de segurança em todas as comunidades".

"Com os confrontos em andamento em Trípoli e pessoas sendo alvejadas, espancadas, esfaqueadas e mortas, o governo libanês não pode ficar de braços cruzados", disse Joe Stork, vice-diretor da HRW para o Oriente Médio. "O governo precisa dar início a prisões e julgamentos de pessoas que estão por trás da violência em Trípoli e confiscar suas armas".

Mas para Abu Mohamed, os alauítas não esperam muito de seu próprio governo, já que Trípoli e regiões perto da fronteira com a Síria se tornaram plataformas para aqueles que querem ir para o país vizinho e entrar em uma jihad (guerra santa).

"Por causa disso, nenhuma solução será efetiva entre Bab al-Tabbaneh e Jabal Mohsen até que o conflito na Síria termine”, disse ele, que acusou ainda a Arábia Saudita de estar por trás dos extremistas em território libanês e sírio, armando e treinando grupos terroristas que realizam atentados à bomba nos dois países. "Nós temos muitos sunitas moderados que lutam lado a lado com os alauítas contra aqueles fanáticos radicais que trabalham para a Arábia Saudita".

 

Tags: Armas, Civil, guerra, mortes, sírios

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