Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Internacional

O silêncio histórico da presidente Cristina Kirchner

Jornal do Brasil

O jornal espanhol El País comenta o "Silêncio da presidente", se referindo à Cristina Fernández de Kirchner. O veículo contabiliza que Kirchner passou 35 dias sem falar em público, uma marca histórica em seus seis anos de mandato, sem ainda considerar o mês e meio que a presidente da Argentina permaneceu ausente do governo em função da delicada cirurgia a que foi submetida. 

O jornal destaca que o silêncio da chefe de Estado tem chamado a atenção dos adversários políticos. Os médicos aconselharam o pós-operatório para evitar uma crise de estresse. Segundo o El País, Kirchner passou duas semanas de férias de Natal em sua província, no sul de Santa Cruz, mas mantém o seu ritmo normal de trabalho, com reuniões e compromissos da sua administração. Mas a presidente só é vista ultimamente em fotos, ao entrar ou sair da Casa Rosada, sede do governo, ou ainda na residência presidencial de Olivos, nos arredores de Buenos Aires.

O jornal espanhol ouviu especialistas políticos que interpretam que a aposentadoria de Kirchner pode ser uma estratégia para evitar o desgaste normal de um governo que tem uma data para findar, em 10 de dezembro de 2015. A reportagem destaca que a inflação está acelerando e aumentou 20,8% ao ano de maio passado para 26,8% em novembro, levando em conta que pela primeira vez em dez anos o governo Kirchner excedeu o aumento médio dos salários (26,1%). Já outros analistas acreditam que, em um país presidencial e personalista como a Argentina, em que Nestor Kirchner e Cristina Fernández trabalharam para transformá-lo no peronismo Kirchner, procura dar destaque a outros atores, incluindo aqueles que aspiram suceder Kirchner. 

Na tentativa de afastar qualquer hipótese sobre a sua saúde, o secretário-geral da presidência, Oscar Parrilli, disse em uma entrevista que a presidente tem se reunido com seus ministros, mas não tem visto necessidade de dar declarações e deve falar em público quando sentir que a situação é apropriada. A última aparição de Kirchner, segundo o El País, foi na celebração do trigésimo aniversário da democracia na Argentina. Na ocasião, a presidente criticou a atuação da polícia no combate ao crime pelas ruas do país, que resultou num saldo de 14 mortos e no esvaziamento dos centros comerciais que foram saqueados.   

Para o jornal, ao deixar a cena pública, Kirchner deu destaque aos seus ministros, especialmente ao Chefe de Gabinete Jorge Capitanich, que assumiu o cargo no final de novembro, com a missão de renovar o governo após uma eleição legislativa não tão favorável para a equipe presidencial.  

Capitanich chegou para governar a província de Chaco, onde a FPV foi esmagada na eleição, começando a sua administração em Buenos Aires, com vigor e estilo de comunicação aberta, como habitualmente acontecia com a presidente. Ele negou aspirações presidenciais, mas poucos acreditaram nele. Parecia que o único adversário com a chance de se reunir com os kirchneristas é o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, que nas primárias levantou a suspeita entre os Kirchneristas mais fieis pelas suas posições conservadoras.

Porém, nas duas primeiras semanas de dezembro a polícia em 20 províncias entrou em greve, levando o país a um estado de extrema violência, com registros de muitos saques que se espalham pelo país, além das quedas constantes de energia. Todos os dias Capitanich relata os acontecimentos nacionais, mas esta semana decidiu limitar as suas entrevistas. 

A imprensa relatou que ele pretendia enviar assistência policial quando a primeira greve dos policiais de Córdoba ocorreu, mas o secretário Carlos Zannini negou a ação, justificando que esta província é governada por uma oposição peronista. Dada a falta de energia, o chefe de gabinete defendeu publicamente que os cortes estavam programados, mas o ministro do Planejamento Federal, Investimento Público e Serviços, Julio de Vido desmentiu o fato. Este mês, o Chaco anunciou um aumento no imposto sobre a propriedade da classe mais alta, mas o ministro da Economia Axel Kicillof, que também assumiu o cargo em novembro, relatou que a presidente descartou a medida. Na semana passada, Capitanich disse que a chefe de Estado havia ordenado a importação de tomates brasileiros para reduzir o preço no mercado local, mas no dia seguinte o governo recuou sob a pressão dos produtores argentinos.

O El País avalia que a oposição peronista busca construir forças presidenciais nacionais. Este é o plano do opositor Sergio Massa, também do conservador Mauricio Macri e outros três candidatos que querem, em princípio, ir para uma primária para definir um candidato comum: os radicais (centrista) Ernesto Sanz e Julio Cobos e o socialista Hermes Binner.

Tags: Argentina, crise, Eleições, kirchner, peronistas

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