Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Internacional

El País analisa os 30 anos de processo democrático na América do Sul 

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O jornal espanhol El País publica nesta segunda-feira (6/1) um artigo do ex-presidente do Uruguai e jornalista, Julio María Sanguinetti, sobre o processo democrático na América do Sul, que colocou fim as ditaduras da década de setenta. Sanguinetti inicia o seu texto relembrando o governo de Raúl Alfonsín, em 1983, na Argentina, que venceu o peronismo que parecia "invulnerável". Segundo o jornalista, a Argentina foi seguida pelo Uruguai e pelo Brasil, em março de 1985, mais tarde pelo Paraguai, em fevereiro de 1998.

Sanguinetti considera que os processos ocorreram de forma diferenciada em cada país e destaca os momentos mais importantes. Na Argentina, ele afirma que a derrota nas Malvinas submergiu o regime militar na vergonha, entregando o poder sem qualquer negociação prévia. No Brasil, Sanguinetti diz que a mudança aconteceu no Parlamento, quando o líder opositor, Tancredo Neves, se associou com aquele que então era o líder de um partido governista, frustando os planos do regime de eleger um presidente complacente. Com a morte de Tancredo, José Sarney teve a oportunidade de presidir o país de forma moderada "e que até hoje continua sendo o fiel da balança no Senado", destaca o ex-presidente. No Uruguai, o processo democrático se deu em 1980, "com um histórico plebiscito no qual a proposta institucional do regime militar foi derrotada e, depois de quatro anos de árduas negociações, se logrou a volta da democracia, a partir de março de 1985".

No Chile, a abertura democrática chegou em março de 1990 - "mas Pinochet, o golpista de 1973 e líder de uma ditadura severíssima, permaneceu como comandante e chefiando as forças do exército até 1998". Sanguinetti comparou este processo chileno à história da Nicarágua, que "quando a revolução sandinista promoveu eleições, ganhou a senhora Violeta Chamorro, viúva de um jornalista assassinado pelo regime de Somoza. Ela teve que governar com um exército chefiado pelo sandinismo e, apesar de todas as tensões acumuladas, redirecionou o país".

Para o ex-presidente, os 30 anos de regime democrático atravessa um momento favorável, com algumas exceções, como os valores "arcaicos" em Cuba, assim como ele chama de "rachaduras" na edificação do Estado de direito, como o "desrespeitos que a imprensa livre sofreu na Venezuela, no Equador e ainda na Argentina, para se dar conta do quanto ainda falta para a consolidação das nossas democracias", destaca o Sanguinetti. Na sua avaliação, o perigo existe na dependência de matérias prima. Ele diz que um grande aliado internacional foi o fim da guerra fria, que causou as turbulências anteriores. "Fria apenas entre as potências, na América Latina essa guerra foi ardente e sangrenta, com guerrilhas armadas e treinadas pelo bloco comunista e com golpes de Estado apadrinhados ou ao menos abençoados pelo Pentágono".

"Hoje vivemos em outro mundo", diz Sanguinetti. E explica que: "no aspecto econômico, a globalização nos presenteou com uma avalanche de crédito com baixas taxas de juros e uma onda de preços espetaculares para as matéria primas e alimentos. O México e a América Central, por sua associação comercial com os EUA, foram os que menos se beneficiaram desse clima favorável aos negócios, mas o conjunto cresceu a taxas inéditas. Nunca as condições do intercâmbio comercial entre exportações e importações foram mais favoráveis. Infelizmente, há países que, inexplicavelmente, por seu voluntarismo econômico e sua agressividade política, não acabam de se estabilizar, como é o caso da Argentina, que comemorou 30 anos de democracia com uma sangrenta onda de saques".

O ex-presidente prevê que o atual momento entrará numa fase moderada e o perigo reside na dependência de matérias primas. Ele cita que o Brasil sonha desde os anos 30 em ser uma potência industrial, agora encontrou na agricultura, especialmente a soja impulsionada pela China, o seu maior fator de expansão.

Tags: brasil, democracia, ditadura, regime, sanguinetti

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