The Guardian - Grã-Bretanha: uma nação em decadência
O Reino Unido não pode produzir o suficiente para reativar sua economia em crise
Os problemas do Reino Unido vão muito além da sua agenda de cortes.
O discurso de David Cameron sobre a economia na última semana, e as reações a ele, mais uma vez confirmaram que o debate sobre a política econômica britânica está chegando a lugar nenhum. O governo de coalizão continua repetindo que tem que cortar gastos, a fim de reduzir os déficits, não importa o quê. A oposição tem se esforçado para explicar que a tentativa de cortar déficits cortando gastos em uma economia estagnada é um exercício em grande parte auto-destrutivo, uma vez que reduz o crescimento e, portanto, a receita fiscal . E a surpreendente carta de sexta-feira (08)de Robert Chote, presidente não-partidário do gabinete de responsabilidade orçamentária, contradizendo o primeiro-ministro e lembrando-o do impacto ambíguo de cortes de gastos sobre os déficits, deu mais peso ao argumento da oposição. A tese é defendida por artigo de Ha-Joon Chang no jornal britânico The Gardian.
Na realidade, contudo, o governo de coalizão não é tão estúpido ou teimoso como ele parece. Ele esta mantendo seu plano A, pois os cortes de gastos não são sobre os déficits, mas sobre a reversão do estado do bem-estar. Assim, mesmo com várias evidências, não mudará a sua posição sobre os cortes.
Em meio a este debate está a questão do futuro de longo prazo da economia. A Grã-Bretanha tem sentido dificuldades para se recuperar da crise financeira não apenas por causa de sua política de austeridade, mas também pela sua capacidade de se envolver em atividades de alta produtividade. Este problema se manifesta na incapacidade do país de gerar um superávit comercial, apesar da enorme desvalorização da libra esterlina desde 2008.
Comparada com a sua alta em 2007, a libra se desvalorizou cerca de 30% em relação ao dólar, 50% em relação ao iene, e 20% em relação ao euro. No entanto, apesar do enorme incentivo para exportação criado pela tal desvalorização, a Grã-Bretanha ainda tem déficits comerciais porque perdeu a capacidade produtiva para responder.
Apesar da desvalorização, as exportações de serviços da Grã-Bretanha caíram, a média das exportações de serviços anuais em Nov-2008 foram 8% inferiores à de jul-2005. Isso pode ser compreensível, dado o mau estado de seu setor financeiro, abalado por um escândalo após o outro e pressionado por um lento aperto da regulação financeira global.
No entanto, as exportações de manufaturados, que supostamente compensariam o déficit criado pelo setor de serviços, também caíram 8% após a desvalorização. Isso é altamente incomum. Por exemplo, quando a Coréia do Sul teve uma desvalorização de escala similar após a sua crise financeira de 1997 (o won, a moeda, foi desvalorizado em 35% em relação ao dólar), as exportações do país passaram a ser 15% maiores (comparando a média 1998-2001 com 1995-97).
A única razão para que a situação do equilíbrio de pagamentos britânico não tivesse sido pior é o grande aumento nas exportações de produtos primários, como petróleo, minerais e alimentos. Estas foram, em média, 22% maiores em Nov-2008 do que em Jul-2005. Em outras palavras, a crise da economia britânica vem se movendo para trás em termos de sua sofisticação como produtora.
Tudo isso significa que sem abordar a decadência subjacente na sua capacidade produtiva, a Grã-Bretanha não pode consertar sua economia em dificuldade. Para lidar com esse problema, ela precisa urgentemente desenvolver uma estratégia de produção de longo prazo através de uma ampla consulta pública, envolvendo não apenas o governo e empresas do setor privado, mas os sindicatos, instituições de ensino e institutos de pesquisa, prossegue o artigo.
A estratégia deve em primeiro lugar identificar cuidadosamente as indústrias e as tecnologias subjacentes, que serão o futuro motor da economia e, em seguida, dar-lhes o apoio necessário. Esta poderia ser na forma de gerar subsídios para Pesquisa e Desenvolvimento, garantias de empréstimos para pequenas empresas, ou preferência nas compras governamentais, que deveriam ser alvo das estratégias destas indústrias, assim como na forma de políticas não específicas por indústria.
Por exemplo, o investimento em infra-estrutura deve ser coordenado com a estratégia industrial mais ampla. Infra-estrutura tem, por definição, uma localização específica, por isso, dependendo das indústrias que se pretende promover, terão de ser construídos tipos diferentes em lugares diferentes. O mesmo ocorre com a educação. Sem que haja alguma estratégia nacional, é difícil para os educadores saberem que tipo de engenheiros ou técnicos produzir, e para os potenciais estudantes saber quais profissões devem estudar.
John Maynard Keynes disse uma vez que no longo prazo estaremos todos mortos. Porém muitos de nós temos de viver por um tempo ainda. Uma série de políticas de curto prazo, seja com base na política de coalizão de cortes de gastos, uma política monetária frouxa ou na política de oposição do aumento dos gastos governamentais, não vão resolver os desafios que a economia britânica enfrenta. É hora de pensar a longo prazo, conclui o artigo de Ha-Joon Chang.
