Berlim alerta sobre a "contaminação" da crise na Itália para resto da Europa
Eleições geraram primeiros rachas na Comissão Européia pela falta de austeridade
Bruxelas - A recessão que corre na coluna vertebral da Europa e a incerteza associada à política italiana funcionam como dois lados da mesma moeda: o método alemão, a austeridade extrema, galopante na Europa há três anos, está chegando ao limite. As primeiras rachaduras, ainda muito incipientes, estão lá: várias fontes europeias afirmaram quarta-feira (27) que uma parte da Comissão começa a ter dúvidas sobre as definições de políticas estritamente concentradas na periferia, embora um público incluindo comissários menos dogmáticos evite fazer referências a este debate. Paris reivindicou hoje as receitas que promulgam o único Executivo socialdemocrata da zona do euro: fontes do Elísio clamam por um "novo modelo econômico", alerta um artigo publicado no jornal El País, assinado por Claudi Pérez e Miguel Mora.
O acidente de trem está prestes a acontecer: para remover tentações de mudanças, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, comparou a Itália à Grécia e alertou que o cenário político italiano "aumenta o risco de instabilidade do mercado." "A Itália é um caso grave, contagioso, infeccioso para a Europa", disse ele. "A crise não está encerrada", previu Schäuble, e alerta para o perigo de que se caia na tentação de uma mudança.
A Alemanha manda muito e adverte seus membros de que a zona do euro ainda não saiu do estado de emergência econômica que começou nos últimos cinco anos. Berlim assusta: a Itália pode ressuscitar os fantasmas da complicadíssima crise do euro, de acordo com esta tese.
Do outro lado, a França reivindicou protagonismo avesso à constatação de que a receita alemã, tesoura sobre tesoura, não funciona muito bem. E no meio da briga entre os dois grandes países do euro, Bruxelas está completamente perdida: a Comissão reconhece que pode ser necessário mais do que austeridade para sair desta, mas se recusa a admitir essas incipientes rachaduras em público.
Enquanto os comissários fazem filas, altos funcionários notam a dificuldade de fazer uma virada política econômica sem o consentimento de Berlim. Não escondem o medo que os mercados se desestabilizem. E, finalmente, admitem que o debate sobre a política econômica européia está aí, mas é difícil sair dessa situação de bloqueio sem que se agrida a credibilidade de Bruxelas depois de defender com unhas e dentes, por anos, a qualidade dos ajustes, defende o artigo.
As últimas previsões econômicas, que mostram toda a zona do euro em recessão, são um claro aviso de que algo não está funcionando. Bruxelas leva tempo tratando de incorporar o crescimento ao seu discurso: a Comissão sempre tentava combiná-lo com austeridade, embora na prática não fosse visto praticamente nenhum incentivo em qualquer lugar. Houve certo relaxamento nas metas de déficit (para a Grécia, Portugal e Espanha, e agora de novo para a Espanha e França) e uma modificação dos métodos de cálculo do buraco fiscal. Relaxamento contábil, nada mais. Ainda, nenhum sinal de políticas que signifiquem dinheiro na mesa.
"O ajuste é necessário, imprescindível, mas vendo os números mais recentes da recessão é evidente que falta simetria: alguns países, como a Alemanha, poderiam fazer mais do que eles fazem", dizem fontes europeias. Se no final deste ano, ou seja, após as eleições alemãs, a política econômica europeia não tiver dado resultado será a hora de fazer uma curva, dizem fontes.
Em público, Joaquín Almunia, Vice Presidente, defendeu na quarta-feira (27) que as razões para os resultados das eleições em Roma "estão na Itália; não são atribuíveis a Bruxelas nem sua orientação da política econômica." Mas alguns comissários têm mostrado, aqui e ali, que começam a aparecer vozes que não veem a austeridade como única receita. "Os italianos não querem apenas sacrifícios e mais sacrifícios", disse o vice-presidente Antonio Tajani segunda-feira (25). "A perspectiva econômica continua a se deteriorar. Além de manter a fé, deveríamos fazer algo diferente?" questiona o Comissário de Emprego Laszlo Andor.
Esse é o ponto
Esse é o ponto. E o debate, na boca pequena, já está sobre a mesa, mas não devemos esquecer que agora essa mesa balança: sempre pende para o lado da Alemanha e dos mercados. Após o triunfo do socialista François Hollande, na França, a Comissão parecia começar uma virada política, mais orientada para o crescimento. A Cúpula de Junho constatou essa mudança de ritmo, esta nova música. Porém a febre nos mercados e depois o poderio de Berlim impediram a passagem das musas ao teatro, além do programa de compra de títulos do BCE e da gênese do banco da união bancária.
"O colegiado de comissários faz fila com o vice-presidente Olli Rehn. Mas nos serviços internos há sim uma facção que defende que isto não se sustente. A dificuldade aqui é para fazer uma volta sem que Bruxelas perca credibilidade, após pressão do FMI, os EUA, o G-20 ou G-7. Por isso, qualquer sinal de mudança é deixado para mais tarde, na espera de uma constatação se a Alemanha está se recuperando ou não, especialmente esperando as eleições alemãs de outono", disse uma fonte da Comissão.
O panorama está longe de ser claro: os analistas esperavam um triunfo da social-democracia na Itália, que provavelmente teria feito uma frente comum Roma-Paris-Madrid, mais duvidosa neste momento. Mas pelo menos a revolta dos cidadãos contra a corrupção da casta política e as prescrições ultra-liberais ditadas por Bruxelas e Berlim inundaram o Parlamento italiano e começa a surgir alguma tração na Europa.
O resultado do movimento 5 Estrelas, que recebeu 8,6 milhões de votos - Silvio Berlusconi perde seis milhões em relação a 2008 e o Partido Democrata de Bersani perde 5 milhões, sem mencionar o fracasso absoluto do candidato comunitário, Mario Monti - é uma novidade na Europa. O maior partido da Casa, o que quebra o sistema de poder surgido do macro processo Mãos Limpas, preconiza um referendo sobre o euro e questiona as políticas de austeridade. Seus 109 deputados e 54 senadores têm agora a chave para realizar as reformas na Itália que serão cruciais para o futuro da Europa.
A França, o maior parceiro comercial da Itália, e seu espelho e modelo em tantas coisas, recebeu os resultados com absoluto respeito e tranquilidade, ao contrário da Alemanha, cujos altos gestores não deixaram de lançar vozes alarmistas. Um porta-voz do Eliseu explicou que o presidente só avaliará os resultados, como de costume, quando for nomeado o primeiro-ministro, mas adianta que o resultado eleitoral “reforça a estratégia de Hollande e sua ideia de que a austeridade sem crescimento corrói a confiança dos cidadãos e o projeto europeu.”
Sem dizer explicitamente, para não prejudicar a Alemanha nem Bruxelas, Paris analisa o voto fragmentado italiano como um sério aviso contra receitas que aprofundaram a recessão Européia.
O Elíseo apela para a validade do recente discurso de Hollande ao Parlamento Europeu: "O crescimento deve ser o centro da estratégia, devemos guardar e equilibrar as contas sem enfraquecer a economia. Austeridade demais só vai levar a mais desemprego e menos atividade, e, portanto, ao desespero dos cidadãos. A Itália confirma este ponto de vista: é preciso impulsionar a integração européia para criar um novo modelo social e econômico”.
Ao mesmo tempo, os conselheiros de Hollande negam que isto represente uma colisão com as políticas defendidas por Merkel: "Nós tentamos criar uma nova dinâmica com a Itália, Espanha e Alemanha, e o discurso de Berlim tem evoluído e se aproximado das posições francesas.” Longe da posição do Governo alemão e espanhol, que comentaram com preocupação os resultados eleitorais italianos, Paris tem um "respeito absoluto pelo voto soberano", explicou o ministro Arnaud Montebourg, conclui o El País.
