Jornal do Brasil

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Internacional

Um tsunami se abate sobre a Itália

A 2ª República italiana, nascida em 1922 dos escândalos, morreu

Jornal do Brasil

As palavras, durante uma campanha eleitoral são inflamáveis ??como a gasolina, machucam como tiros, mas também revelam o que está queimando. Quem sabe escolhê-las e gerenciá-las é capaz de entender o presente e especular o futuro. Quem ignora é condenado, diz o artigo de Melania G. Mazzucco, para o jornal 'El Pais'

Vou tentar explicar o que aconteceu na Itália, utilizando dois termos que parecem ser palavras-chave para o entendimento. A primeira é o "tsunami". Ela pertence à língua japonesa, e os italianos nunca tinham ouvido sua pronúncia antes de 26 de dezembro de 2004, quando um desses eventos causou uma catástrofe na costa do Oceano Índico. 

Desde então, no vocabulário italiano tornou-se sinônimo de onda anômala, extremamente violenta, que desce sobre lugares onde reina a calma ficcional, expondo a sua fragilidade. A palavra contém uma carga explosiva, punitiva e mítica. Além disso, não há nada que possa parar um tsunami. No máximo, pode se alertar para a sua chegada e deixar o litoral. Mais ou menos, é isso que pretendia Beppe Grillo ao chamar de "tsunami tour" os comícios da campanha eleitoral do Movimento de Cinco Estrelas. A onda estava se aproximando e os sinais de alarme soaram durante algum tempo. Mas foi como se os outros partidos tivessem se sentado na praia, sob um guarda-chuva, com cocktail na mão, aproveitando as férias.

A segunda palavra é "casa". Os italianos não acreditam em quase nada
A segunda palavra é "casa". Os italianos não acreditam em quase nada

A segunda palavra é "casa". Os italianos não acreditam em quase nada. Seria um erro supor que se deixaram levar por promessas de dois formidáveis vendedores, como grande parte da imprensa estrangeira se apressou em definir Berlusconi e Grillo. A verdade é exatamente a oposta: os italianos não são ingênuos inocentes, mas, sim, cínicos desiludidos. Eles não venderam um sonho, mas um despertar. Os italianos não acreditam na pátria. Eles talvez acreditem em Deus, mas não em seus representantes, e a dissolução do eleitorado católico parece provar isso. Acreditam pouco nos partidos tradicionais. Absolutamente nada nas instituições, manchadas e esvaziadas por saqueadores indignos. Pouquíssimo também na Justiça, sustenta o artigo. 

Nesta campanha eleitoral a nobre palavra "Justiça" tem sido a grande perdedora. Aqueles que a usaram como slogan, ou a propuseram como programa, foram derrotados. Neste momento, a única justiça para os italianos é a justiça social, que foi destruída, e a dos tribunais expirou diante de seus olhos como mercadoria estragada. Por isso, pode-se dizer que, na verdade, ontem a II República, nascida dos escândalos e processos judiciais em 1992, morreu. Enterrada sob as dívidas que contraíram com os europeus e seus cidadãos.

Quando tudo se desmorona, o que resta é a família, e seu símbolo: a casa. Comprada em prestações, construída de forma inadequada, ocupada ilegalmente, alugada ilegalmente, dada como garantia aos bancos, hipotecas, expropriada, doada pelos avôs aos seus netos, que talvez nunca tenham empregos ou pensões. Cerca de 70% dos italianos possuem uma casa e os demais sonham em consegui-la. Comprá-la para as gerações inteiras significou uma prova de bem-estar a ser alcançada, a segurança do futuro. Tributar a casa de forma indiscriminada, sem oferecer nada em troca pelo sacrifício, nunca será perdoada pelos eleitores.

No entanto, a expressão "mandar para casa", em italiano tem um significado oposto. Isso significa quase "mandar tomar vento". O termo "a casa, a casa!" levava meses ecoando nas ruas e na rede, como uma promessa. E milhões de italianos (com ou sem direito a voto) mandaram tomar vento uma classe dominante inteira (a "casta"), na qual talvez tenham votado há cinco anos, por se sentirem traídos e desprezados. Este convite quase ameaçador levava implícito, no entanto, um sopro insignificante de democracia. A ideia não era de que estavam ocupando "sua casa", mas sim a de todos.

Após estas eleições não vi um único sorriso, nem houve comemorações: é difícil falar de vencedores, porque depois de um tsunami na praia são apenas escombros e cadáveres. A Itália até agora só é conhecida como a noiva em coma, a terra dos sonhos, em letargia perpétua. Talvez estejamos no processo de reanimação. Os italianos votaram nas eleições para o Parlamento da República, como têm feito em seus pequenos municípios, onde foram escolhidos cidadãos, estudantes, profissionais liberais, desempregados, pessoas que poderiam ser reconhecidas. Essa necessidade de compartilhar, que era de raiva e revolta, mas que se tornou energia é a única lição real que temos dado nas urnas. O que acontecerá agora não sabemos, mas ignorar esta mensagem ou esquecê-la, seria como tem sido, fatal, conclui o texto de Melania G. Mazzucco.

Tags: coma, futuro, ideia, JB, noiva

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