Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Maio de 2013

Internacional

Novo papa deve ser europeu e conservador, dizem analistas

Bento XVI anunciou que não tem mais condições físicas de continuar à frente da Igreja 

Portal Terra

Um cardeal latino-americano, africano ou asiático, carismático e identificado com os países emergentes. Esse seria o homem ideal para ocupar o lugar de Bento XVI no Vaticano, segundo o monsenhor Robert Wister, professor de História Eclesiástica na Seton Hall University, em Nova Jersey (EUA), e Robert Mickens, correspondente em Roma para o jornal The Tablet, um semanário católico internacional fundado em Londres em 1840. Porém, eles acreditam que o Conclave deve acabar optando por um papa europeu e conservador, ligado às ideias de Joseph Ratzinger.

"O mais provável é que o homem que sucederá Bento XVI seja um bispo de Roma, que compartilhe a sua visão da Igreja - tradicional, resistente a mudanças estruturais e insistente em ser uma minoria profética num mundo que está perdendo as rédeas. Ao renunciar, Bento XVI terá uma oportunidade sem precedentes para garantir isso, já que os cardeais serão hesitantes em escolher alguém que leve a Igreja para uma direção diferente", analisou Mickens.

"Ao contrário de 100 anos atrás, a esmagadora maioria dos católicos hoje está no mundo em desenvolvimento (América Latina, África e Ásia), mas, infelizmente, os europeus e americanos estão em esmagadora maioria no Colégio dos Cardeais. Eu acredito que seria necessário para a Igreja reconhecer a importância crescente do mundo em desenvolvimento e diminuir a influência do catolicismo europeu", disse o monsenhor Wister, que possui o título eclesiástico de honra conferido aos sacerdotes da Igreja pelo papa.

Bento XVI anunciou em latim a decisão pela primeira vez durante um consistório (reunião de cardeais) no Vaticano nesta segunda-feira. Em comunicado, ele disse que tomou a decisão por considerar que sua condição de saúde e idade avançada não eram adequadas para continuar no cargo. O Pontífice continuará realizando suas funções normalmente até o dia 28 de fevereiro.

"O novo homem terá de ser um administrador melhor e saber delegar melhor a autoridade do que o atual papa. Um cardeal com experiência em uma grande diocese, que fale muitas línguas e tenha cerca de 70 anos de idade, seria um bom candidato. Scola, em Milão é, provavelmente, o principal candidato italiano", afirmou Robert Mickens.

Igreja Católica entra em momento histórico incerto

Mickens entende que a renúncia de Bento XVI é o evento mais significativo da Igreja desde que o papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, há cinco décadas. Conforme ele, se o novo papa for contrário às ideias de Ratzinger, a instituição pode se dividir nos próximos anos.

"Se o novo papa estava fazendo movimentos contrários às ideias de Bento XVI e aos seus aliados mais próximos, isso pode levar a divisões profundas dentro da Igreja. Com a renúncia de um papa e a eleição de outro, a Igreja entra em águas inexploradas, pelo menos para a idade moderna. Os líderes de outras Igrejas cristãs têm sido capazes de renunciar e entregar as rédeas do poder de maneira harmoniosa, mas Bento XVI concorda que a Igreja de Roma não é como qualquer outra", salientou.

Para Robert Wister, a renúncia deve servir para a Igreja buscar um homem mais jovem e em boas condições de saúde: "Eu acredito que o papa Bento XVI reconheceu que é necessária uma liderança forte e que a sua saúde está em declínio. A velhice convenceu-o que um homem mais novo era necessário para liderar. A Igreja Católica não tem leis ou regras para lidar com uma situação de um possível "impossibilitado" papa Bento, e ele poupou a instituição deste problema".

Surpresa no Vaticano

Em entrevista coletiva para esclarecer a decisão do papa, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou na manhã desta segunda-feira que todos se surpreenderam, inclusive os assistentes mais próximos. Ele também deixou claro que a decisão não foi tomada por quaisquer dificuldades que Bento XVI possar ter encontrado em seu papado, nem por uma doença específica, apenas pela idade avançada.

Bento XVI completará 86 em abril. Ele é o terceiro papa mais velho da história, atrás apenas de Leão XII, que morreu aos 93 anos, e Clemente X, que chegou aos 86 anos. O porta-voz disse que o novo Conclave para eleger um novo papa deverá ser realizado em algum dia de março, antes do final do mês. Bento XVI não irá participar da escolha, segundo Lombardi.

Renúncia Papal

A renúncia de um papa está prevista no Código de Direito Canônico, que estabelece que para que seja válida é necessário que seja livre e especifica e que não precisa ser aceita por ninguém.

"Se o Romano pontífice renunciar a seu ofício, requere-se para a validade que a renúncia seja livre e se manifeste formalmente, mas que não seja aceita por ninguém", estabelece o cânone 332,2 do Código de Direito Canônico, único elemento válido para julgar o tema.

O último Sumo Pontífice a renunciar foi Gregório XII, em 1415. Bento XVI é o quarto papa a renunciar ao cargo. 

Tags: bento, papa, Renuncia, sucessor, vaticano

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