Coreia do Norte: "ataque ocidental é improvável", dizem especialistas
Mais de 20 anos depois que términou a Guerra Fria, o mundo ainda vive sob o fantasma da ameaça de uma guerra com armas nucleares. Uma das áreas de maior tensão do mundo é a Ásia Oriental, devido ao governo radical da Coreia do Norte. Há duas semanas, o regime comunista realizou um teste com o lançamento de mísseis de longo alcance, o que já havia acontecido em 2006 e 2009. O clima tem se deteriorado na região, uma vez que as críticas a Pyongyang vêm aumentado em relação à Coreia do Sul.
A comunidade internacional tem recebido as ameaças com preocupação, já que a política de Kim Jon Um pode alterar a equilíbrio da região. Segundo Diego Santos Vieira, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, o Ocidente encara as atitudes norte-coreanas como um desafio aos tratados internacionais:
“A realização de testes nucleares pela Coreia do Norte é entendido como mais um desafio desse país ao regime de não proliferação e pode motivar reações mais assertivas por parte de grandes potências”, afirmou.
Armas nucleares não são utilizadas para fins bélicos desde 1945, data do lançamento de bombas atômicas pelos Estados Unidos contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial. Para Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), as potências atômicas não consideram aceitável que novos países desenvolvam bombas nucleares.
“Não é do interesse das nações ocidentais que o clube seja ampliado. Além disso, a arma nuclear é dissuasiva”.

O presidente chinês, Hu Jintao, reforçou os laços estratégicos entre a China e a Coreia do Norte pedindo que trabalhem pela "paz e estabilidade" após o lançamento do foguete por Pyongyang. O governo chinês é o único grande aliado e uma fonte econômico-financeira à isolada nação asiática. Um dos interesses mais vitais à política de Pequim é evitar uma guerra entre as duas Coreias, com uma possível vitória para o Sul, que está sobre a proteção norte-americana.
“A Coreia do Norte está na área imediata de influência da China, que visa evitar intervenções na região e a abertura de precedentes para ação internacional no seu entorno regional.”, explicou Diego Santos Vieira.
Apesar da parceria estratégica, não é do interesse do governo chinês que seu aliado esteja militarmente armado. A China vem aceitando as resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre as sanções contra o aliado. O órgão já aprovou diversas resoluções que proíbem a China de vender armamentos ou tecnologia. Gonçalves acredita que a China não deseja tornar a Coreia do Norte uma nova potência militar na região:
“Não é do interesse chinês uma Coreia superarmada. Até porque, às vezes, as coisas saem do controle”, concluiu o professor da UERJ.

Apesar das provocações, os analistas não acreditam num eventual conflito armado de caráter preemptivo, isto é, atacar quando o oponente está na evidência de um ataque. A comunidade internacional regulamenta um eventual uso da força quando há provas de uma investida. Dessa forma, por exemplo, os Estados Unidos começaram a Guerra do Iraque, usando a ambiguidade de conceitos com prevenção (quando ameaça não é evidente), recebendo críticas das demais potências. Ainda segundo Vieira, a repercussão negativa da ofensiva contra o Iraque e a proximidade com a China e o Japão.
“É improvável que se realize um ataque preemptivo pelas críticas feitas pela comunidade internacional em relação à ação no Iraque e pelo fato de haver grandes potências no entorno da Coreia do Norte”.
Nas últimas semanas, Obama tem intensificado as críticas feitas ao regime comunista. O presidente americano disse que "o velho padrão" de provocações norte-coreanos e o envio de ajuda em troca de bom comportamento está acabado.
“Manifestações dos Estados Unidos ocorrem devido à política interna, com a finalidade de interesses na campanha eleitoral. Ele é visto pela oposição como um candidato fraco. Logo, quer mostrar ao povo americano quer é forte. Ou seja, esse discurso mais agressivo é para o público interno”, concluiu Williams Gonçalves.
Na semana passada, em comunicado oficial, o governo norte-coreano disse que os alvos são "o grupo de traidores de Lee Myung-Bak, os criminosos e a mídia conservadora que destrói a opinião pública justa", prometendo, inclusive, transformar o rival em cinzas.
“A implementação de ameaças tem finalidade mais doméstica para garantir maior lealdade e consentimento da população ao governo”, analisou Diego Santos Vieira.
Reportagem: Rômulo Diego Moreira
